Todos amam Van Gogh

Comprei esse livrinho no aeroporto de Belo Horizonte, como se compra um livrinho,  como quem  escolhe rever um filme – para matar as horas do limbo que são os aeroportos. Van Gogh (que preferia ser chamado de Vincent) está morto, empacotado,  sacralizado, canonizado, banalizado, é o próprio clichê e caricatura do artista e da vida de artista. Van Gogh é como se chamam as agências mais pretensiosas de um banco brasileiro (como é que um negócio desses acontece?), é nome de condomínio, é a sofisticação dos simplórios. Todos amam Van Gogh. O que ele poderia ter para me dizer?

Mas o livrinho me rendeu alguns pensamentos que anoto aqui, sem configurar uma resenha ou artigo. São anotações breves.

***

A primeira, bastante óbvia, é que é muito fácil amar Van Gogh hoje. Nós não o amaríamos no século XIX. Nem o homem nem a obra.  É fácil esquecer a ruptura que ele representa. Se os impressionistas, que nos parecem tão amenos hoje, causavam reações de indignação no público da época, o que dizer de Vincent, que mal e mal era entendido por seus colegas? A selvageria de sua pintura, a radicalidade de sua intenção de pintar em tempo real, seu desprezo pelo artifício ou pelo ilusionismo (apesar de se ver como um realista).  Difícil imaginar um trabalho de arte que tenha o mesmo significado de ruptura hoje.

E num tempo onde o código social era representado rigorosamente através da vestimenta, Vincent realmente não dava a mínima. Macacão de operário manchado de tinta, chapéu de palha e uma tela gigantesca amarrada nas costas. Assim ele partia para longas caminhadas sob o sol mais inclemente. Escolhendo gastar mais da (ínfima) mesada de Theo em tintas do que em comida, morando nas condições mais primitivas, não tenho dúvidas de que Vincent cheirava mal, tinha poucos dentes, o mau hálito dos que não comem e a maior parte de nós não lhe daria um copo de água. O amamos como a Arthur Bispo do Rosário ou ao Profeta Gentileza, agora que não incomodam ou fedem mais.

***

Vale dizer que o livro faz um esforço para ir além do folclore de sua lenda, demonstrando com cartas e documentos uma extrema lucidez ao longo de quase toda a vida, um pensamento muito agudo sobre arte e dissipando muito das fantasias românticas clássicas de loucura.  É curioso (e tocante) ver suas tentativas empresariais, sua fantasia de uma cooperativa de artistas e, como é comum na vida dos que tem pouco dinheiro, o gigantesco espaço que esse ocupou em suas preocupações. E com o esforço monumental que empreendeu para se tornar o artista que se tornou, ainda há o que aprender em seu processo e pensamento. (Esquecemos como ele era ruim quando começou e por quanto tempo ele foi ruim, o quanto ele escolheu mal seus mestres, o quanto seu aprendizado foi acidentado e sofrido. E como qualquer guru de auto-ajuda sabe hoje, errar ensina muito.)

Por fim, é interessante pensar que embora sua lição tenha sido assimilada na história da arte,  permanece muito além do mundo dos quadrinhos. Seu propósito de “exagerar o essencial e deixar propositalmente vago o banal”, seu desejo de pintar/desenhar com o imediatismo de quem escreve, ainda são arrojados para um meio que permanece dominado pelo desenho acadêmico; onde um mínimo de espontaneidade ainda frustra uma vasta parcela do público, que realmente preferiria que cada janela de prédio estivesse em seu lugar, cada músculo fosse corretamente representado e ainda se impressiona com técnicas de pintura que já eram velhas para Vincent em 1880.

6 thoughts on “Todos amam Van Gogh

  1. Martha says:

    Odyr, eu estou lendo – ou estava lendo – as cartas de Van Gogh. Sao extremamente bem escritas, e na verdade eu parei porque nao estou em momento de produzir muito – e e o tipo de coisa que deve ser lida quando a gente esta imersa no trabalho. E Van Gogh na fonte, do puro. O que a gente ve e um homem que tem a nocao exata do que e perfeicao na arte, e as cartas mostram a trajetoria obcecada pra chegar ate la. E bom de ler quando se esta em production mode, porque a obsessao dele e contagiosa.

  2. odyr says:

    Sim, eu tenho que comprar as cartas de novo. Acho que eu comecei a ler quando era muito jovem e o livro se perdeu pelas dobras do tempo. Agora estou em produtcion mode total, então faz sentido.

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