Viver de quê? Como?

Como viver de criar imagens em um mundo que, embora seja ricamente decorado com elas, promove com a mesma intensidade a cultura do grátis? Renato Alarcão.

Tive ganas de responder o tweet de Alarcão, com minhas hipóteses.

Alarcão, como você sabe bem, estamos todos – músicos, desenhistas, escritores e artistas de todas as áreas – nos perguntando o mesmo. Não tenho a infinita vaidade de achar que tenho a resposta, nem acho que ninguém tem. Mas venho pensando nisso. Seguem umas idéias a respeito, rabiscadas aqui na hora. Por favor fique(m) à vontade para contribuir com idéias nos comentários.

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A cultura do grátis não tem volta, me parece. Tentar se agarrar ao conteúdo é como tentar preservar uma escultura de gelo na Bahia. Comentei o outro dia no twitter que acho interessante como bons artistas não costumam assinar cada rabisquinho nem colocar marcas d´água em tudo.  Geralmente quem marca cada desenho assim freneticamente não tem muito o que oferecer. Acho que temos que liberar mais e mais de nosso trabalho. Grandes artistas costumam ser grandes também em sua generosidade. E você precisa ser conhecido para ser amado.

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Micropagamentos, quando se tornarem amplamente disponíveis vão facilitar um pouco isso. Se ler a história de alguém ou ouvir sua música custar alguns centavos e não envolver formulários, acho que muitos de nós pagaríamos. Usar o cartão de crédito ou imprimir um boleto é um outro grau de envolvimento. O ideal seria mesmo você ter um crédito na internet, que você possa usar com um clic. Acho que isso está em construção.

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Vamos ter que ser melhores, vamos ter que importar mais. O mundo se abriu, o mundo está aí. Abrem-se as possibilidades para você achar seu público aqui ou na Finlândia ao mesmo tempo que que você compete com todo o mundo.

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Vamos ter que ser mais pessoais e intransferíveis. Acredito que aumenta o valor e o interesse naquilo que só você faz. Existe uma zona, um registro, muito pessoal, onde ninguém compete com você. Quando mais pessoal, mais intransigente em sua criação, maior seu valor.

Eu vejo que sites (e os artistas que criam o conteúdo desses sites) se classificam  em três registros:

O primeiro é aquele que você passa, olha por um segundo, sorri e segue em frente. Como um conhecido, alguém com quem você esbarra na rua de vez em quando. Alguém que você não tem o telefone e não se preocupa em ter.

Num segundo nível, são artistas que você gostaria de ver mais, olha com um pouco mais de atenção, mas se não for lembrado dele de novo, esquece. Como amigos de amigos.

E num terceiro nível, artistas que te afetam mais profundamente, gente que você quer ter por perto pelo resto da sua vida, como família, como amor, como o amigo mais querido. Artistas que você apoia incondicionalmente. Artistas que você ama.

Como no paralelo afetivo, você não tem como significar isso para todo mundo. Mas você tem que achar essas pessoas e permitir que elas te achem. Elas vão multiplicar seu trabalho para o primeiro e segundo nível.

Você tem que ser amado para sobreviver como artista. O que faz todo o sentido para mim, porque a maior parte de nós se tornou artista para ser amado, conscientemente ou não.

2 thoughts on “Viver de quê? Como?

  1. odyr says:

    Luís, por supuesto que amor não paga aluguel. Mas paga. O amor que tenho pelo meu trabalho reflete no trabalho, me faz trabalhar mais e gera mais trabalho e mais dinheiro. E se você olhar, eu estou falando de estratégias, de maneiras de fazer nosso trabalho circular. Tá tudo misturado nesse mundo.
    Abraço.

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