ABC do letreiramento

Devo estar com tempo livre demais, porque estou aqui dando uma aula grátis de letreiramento. Mas é domingo. E conhecimento está aí pra circular.

É uma aula realmente básica. A ciência fundamental da coisa é simples. Quem primeiro me passou esse conhecimento foi Iotti, primeiro cartunista que conheci ao vivo. Ao vivo, não levou mais que dois minutos pra ele me transmitir o básico e me serviu pra uma vida toda.

Estou num projeto aí que envolve um tanto de letreiramento, então estou fazendo separado dos desenhos, o que não recomendo – você quer que a proporção de desenho e letras fluam juntos. Um fato é que – a partir de um certo ponto, sua mesa parece a de um serial killer. Quem, nos dias de hoje, escreveria essa quantidade de palavras à mão? Só maníacos em seus caderninhos cheios de símbolos demoníacos. E quadrinistas.

De qualquer maneira, sou um firme defensor do letreiramento à mão.

1)Primeiro porque, por mais artesanal que uma fonte pareça ou por mais perfeita que seja uma fonte feita a partir de sua própria letra, tem algo morto ali – o ritmo é muito regular, o espaçamento muito perfeito. Tem uma música, um ruído na escrita manual que não pode ser reproduzido por uma fonte. E sua letra é sua letra, parte da sua identidade, de como as pessoas vão identificar seu trabalho.

2) Escrever à mão faz com que você só escreva o essencial. Não é como digitar palavras no teclado do computador. Cada palavra dá trabalho e conta.

3) “Minha letra é feia” não é desculpa. Letreiramento é desenho. Você aprende. E melhora com a prática.

Então:

Primeiro:  Se são balões de fala, inclua no desenho, desde o primeiro esboço. Você quer ter certeza que o diálogo vai caber ali antes de avançar com o desenho. E que eles estão colocados no lugar certo – que a leitura deles flui como você imaginou. Que o balão aponta para quem está falando e que eles vão ser lidos na ordem natural ocidental – da esquerda para a direita.

Segundo: Faça linhas. À mão ou com régua e esquadro.

Terceiro – escreva, a lápis. Ajuda dividir em etapas – nessa etapa você está escrevendo, de fato, se preocupando com o conteúdo e com a organização dele e a divisão em blocos. Pequenos blocos. Pessoalmente, acredito que um balão de texto não devia ter mais que três ou quatro linhas.

Quarto – Finalização. A ferramenta em questão varia do gosto do freguês. Caneta tinteiro, pena, pincel, canetinha. Uso um marcador definitivo desses, um em particular ao qual me apeguei e que de vez em quando some das lojas para minha grande aflição. Assim como com o desenho, faça fora de ordem. Qualquer coisa que você faça em quantidade, vai ter uma visível evolução. Fica menos visível se você fizer o trabalho fora de ordem.

E:

– Faça o possível e impossível para não dividir palavras. Pra isso você está escrevendo a lápis primeiro, resolvendo todos os problemas antes para que a aplicação da tinta seja um processo fluido, hipnótico e livre de decisões intelectuais.

– Se não cabe, não cabe. Corte texto, faça mais balões. Seu ideal é – a letra do mesmo tamanho, com o mesmo generoso espaço de respiro dentro dos balões.

– Escolha um alinhamento (centralizado, alinhado pela direita ou esquerda) e se mantenha com ele.

 

É isso. Aproveite, pratique, passe o conhecimento adiante. Abraço.

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