estratégias de pintura

O Brian Eno tem esse negócio chamado Estratégias Oblíquas – um set de cartões com instruções para perturbar o trabalho artístico. Uma espécie de método zen, um bastão na cabeça como alternativa ao excesso de pensamento ou o abismo da dúvida. Uma restrição, uma remoção temporária do peso da liberdade infinita. Hoje me ocorreu que tenho algumas, desenvolvidas no embate com a pintura.

Não tem como descrever para o não-praticante (que expressão falsa, já que é exatamente o que vou tentar a seguir) o quanto a pintura é um animal diferente do desenho. As fronteiras entre desenho e pintura obviamente não são tão claras, mas acredito que você saiba quando está em um ou em outro. Pessoalmente acredito inclusive (sem nenhuma evidência científica) que são partes do cérebro completamente diferentes sendo usadas. Por exemplo, ouço música todo o tempo que pinto, acho impossível quando estou desenhando. O desenho é pensamento, compreensão; a pintura é percepção, é uma rede e não um anzol. Certo e errado parecem mais definitivos no desenho. A pintura é um pântano, com os pontos de referência perdidos. Isso que sou um praticante de um certo realismo – muito mais difícil imaginar como os abstratos sabem por onde ir. Lembro do documentário com o Gerhard Richter, onde o entrevistador pergunta candidamente – como ele sabe quando a pintura está pronta? Quando sinto que não posso fazer mais nada nela, diz Gerhard.

O fato é que a pintura é realmente um território propício para estratégias oblíquas. O desenho (de novo, generalizando) tem objetivos mais claros – um começo e fim mais inequívocos. Pintura não acaba nunca. Você desiste dela, disse alguém. Só o fato de poder ter camadas infinitas já é sintomático. Tem algo de libertador nisso. A qualquer momento você pode simplesmente cobrir tudo de branco e começar de novo.  A beleza da coisa aí é que você não vai começar do zero de novo – além de SABER o que está por trás daquele branco, ele nunca vai ser realmente branco. Tem um fantasma da pintura anterior que é visível – o tal pentimento. Ele pode ser o guia para uma outra versão da mesma imagem ou o gatilho para outra completamente diferente. O que cria choques interessantes, sombras e ruídos que estão onde não deviam estar,  uma colaboração benvinda do caos. O caos pinta muito melhor que nós, vide sua paleta.

Um tanto radical demais pra chamar de estratégia  – mas já me ocorreu, num momento de extrema frustação, tacar a paleta na tela, como uma torta de palhaço na cara. Maravilhoso caos se instalou, base para outras possibilidades, para uma organização sobre o caos que contém sua memória ali, na transparência da tinta.

Outra estratégia, essa bastante óbvia, é largar a tela e continuar outro dia. De novo, é outra diferença grande do desenho – com exceção dos hiperrealistas ou detalhe-obsessivos, o desenho tem uma tendência a se resolver em uma sessão. A pintura é pintada muitas vezes. Amanhã você é outra pessoa, com outras opiniões sobre aquela tela. O que era bom parece ruim e vice-versa. Imagino que só os extremamente metódicos de fato continuam a pintura no dia seguinte. Pra mim nunca se trata de continuar. Mas de perverter o que foi feito no outro dia, contrariar, destruir, sublinhar, acrescentar ou subtrair. Quando não estou trabalhando, mantenho (como muitos pintores, imagino) as telas sempre viradas pra parede -o que você quer ao colocar a tela no cavalete o é o máximo de novidade na sua visão, o máximo de espanto e estranheza possível. Tem esse trecho no livro do Malcom Gladwell, sobre especialistas que são convidados a validar a autenticidade de uma estátua grega descoberta – eles são conduzidos até a estátua, coberta com um lençol que só é retirado no momento exato  que eles vão vê-la: a tentativa de ter a visão mais pura e imediata do objeto (a tese do livro é que nesse exato momento, eles SABEM; com mais certeza que os testes científicos, se é uma cópia ou não: o cérebro decide antes do que eles). Para isso, também recomendo trabalhar em várias ao mesmo tempo. Quando você não consegue mais enxergar ou resolver os problemas de uma, colocar outra no cavalete é um pequeno choque no cérebro, que estava obsecado com o problema anterior: novos problemas. O cérebro é essa máquina que realmente aprecia resolver problemas.

Ainda: o espelho é seu amigo. Isso a cada etapa, desde o desenho, que você há de saber que quase todo mundo desliza pra um lado. Tem uma distorção de percepção – o que você pensa que é vertical, geralmente é diagonal – por isso o retrato frontal é tão difícil. E ao longo do processo, igualmente: a pintura no espelho revela uma série de distorções e defeitos ocultos. É uma outra visão. Da mesma forma: virar a tela de ponta-cabeça no cavalete. Estranheza súbita.

Ainda sobre a questão das etapas: aceitar que precisa de muita má pintura pra ter uma boa pintura. Não só a quantidade de más pinturas antes de chegar a uma boa pintura (se é que essas palavras podem significar alguma coisa), mas a quantidade de má pintura que existe DENTRO de uma boa pintura. Uma pintura pode ser ruim por muito tempo antes de parecer boa. O contrário infelizmente também é verdade: poucas pinturas vão parecer boas (para o pintor) por muito tempo. O que aí já é um outro problema, irresolvível – se você é um bom artista, nunca está satisfeito. Só os medíocres são felizes nesse aspecto. O documentário do Richter tem essa cena muito boa, onde no final do expediente ele está encostado na porta olhando meio desconsolado para as telas e diz: elas parecem boas por algumas horas, às vezes por um dia ou dois.

A pintura não acaba.

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