retratos

É um conselho tão bom esse do Neil Gaiman: trust your obsessions. Confie nas suas obsessões.

É difícil de seguir. Porque suas próprias obsessões não lhe parecem grandiosas, importantes, significativas. São como maus hábitos, sintomas neuróticos que lhe envergonham um pouco. Não nos parece possível que a arte venha disso. Por exemplo, nos últimos tempos, quando pinto, geralmente pinto retratos. Tenho uma obsessão infinita com a maneira que a carne se organiza nos seres humanos ou em como a luz reflete num rosto ou em postura corporal – a maneira exata como alguém se inclina em direção ao outro. Mas é uma área curiosa, o retrato.  Às vezes me pergunto como foi que atribuímos alguma transcendência a ele. Era algum fulano ali, sentado na frente do Cezanne ou do Rembrandt, certamente entediado com a longa espera, pensando nas contas.  Qualquer pintor que se preze fez centenas, quando não milhares de estudos da figura humana que eram exatamente isso – estudos. Alguns visualmente tão impressionantes quantos os grandes retratos que entraram para a história da arte. Certamente grandes retratos da história da arte começaram como estudos, exercícios (encomendas,  presentes, ocasionalmente pra pagar as contas na taverna). Como alguns desses retratos se tornaram arte? Que operação foi essa? Onde ela acontece? Como que  o vizinho ou parente do pintor vira uma obra de arte?

Além do estúdio, os pintores antigos pintavam pessoas que viam na rua. Sintomático do tempo em que vivo, não saio de casa. Não conheço meus vizinhos. Então pinto pessoas que vejo na TV. Estou vendo um filme ou seriado e de repente, por um momento, uma outra parte do meu cérebro enxerga algo ali naquela cena completamente prosaica: o personagem olha pra mesa, pega um copo de água… nada demais.  Mas por um frame, um frame em particular aquele ser humano, aquela luz, aquela composição se tornam algo extraordinário. Às vezes está literalmente em um frame esse algo que enxerguei – fico dando pause e voltando e quase indo quadro a quadro até achar o momento exato (às vezes não acho, é como se aquela imagem exata não existisse). Então desenho a maldita cena pra me ver livre de mim e poder continuar meu filme. Às vezes o impulso é insuportável, acontece 3 ou 4 vezes num trecho de dez minutos. Uma experiência impossível, assistir algo comigo.

Mais tarde ou no dia seguinte olho aqueles desenhos e alguma solução de cor me ocorre, mudo ou subtraio elementos, pinto e no final geralmente pouco ficou da cena original. E as pessoas chegam a conclusões e percepções completamente diferentes sobre aquela cena. Sobrepôem suas próprias histórias, imagino. Mas eu sei a origem prosaica, modesta de cada uma dessas imagens. Elas tem alguma transcendência agora? São algo? São arte? Não sei. Minha escolha desses momentos parece casual mas tenho que acreditar que tem uma escolha sendo feita, um motivo que me atrai para um certo tipo de cenas.  Suponho que se possam fazer as mesmas perguntas sobre qualquer outro tipo de tema: como é que um punhado de maçãs sobre uma mesa vira arte? Ou campos de trigo?

Talvez não seja meu papel julgar. Vou em frente, vou tentando, vou descobrindo. Talvez mais adiante eu pinte outras coisas. Mas acho que não é uma questão de procurar temas, grandes, nobres temas. É uma questão mesmo de acreditar em nossas modestas obsessões.

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One thought on “retratos

  1. Luiz Cabral de Melo says:

    Pode ser tardio, mas esta postagem foi algo que me veio a mente enquanto via este vídeo. “https://www.youtube.com/watch?v=PMerSm2ToFY#t=268” Tudo de bom pra ti, Odyr!

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