Millôr, Millôr

Morando aqui no fim do mundo não tive a chance de ver como ficou impresso, mas saiu ontem no Globo um caderno especial sobre o Millôr, com vários cartunistas homenageando o mestre. Tive a chance de participar, falando da importância dele na minha árvore genealógica, com esse cartum e um texto. Queria ver também o que os outros colegas no caderno fizeram/disseram, ver como cada um pagou esse cheque. O certo é que em se tratando do Millôr, a questão não é se devemos ou não pra ele, mas quanto. Eu certamente devo muito.

Aqui o texto:

Para um artista, não há nada que substitua ver um original de perto . São perguntas que nem sabíamos fazer que se respondem: o tamanho, a textura, a cor exata no papel. Ou por exemplo constatar que “viver é desenhar sem borracha” não era só uma máxima, mas uma prática. Não tinha ensaio ali, tudo vinha como vinha.
Ali por 2006 eu não tinha saído do armário como artista e fui trabalhar como diretor de arte numa pequena editora do Rio com a ambiciosa missão de reeditar Millôr, a Desiderata de Martha Batalha. Ao longo do processo, passei uma meia dúzia de tardes no estúdio com o mestre do zen carioquismo e muito tempo com seus originais (com que trepidação saí dali carregando o primeiro lote embaixo do braço).
E aquele estúdio. Vocês podem ficar com suas vistas turísticas, aquele era o lugar mais lindo do Rio pra mim. Um mundo de livros em meia dúzia de línguas, uma floresta de pincéis e canetas sobre mesas e mesas cobertas de papéis e materiais. Entendi na hora que entrei ali que eu queria o emprego do Millôr. Não o dele, claro; mas aquele emprego: ficar no estúdio o dia inteiro inventando coisas.
Além dessa realização imediata e da fortuna dessa breve convivência, a exposição massiva ao seu trabalho teve um efeito que vem se desdobrando em mim até hoje: a coragem e o desapego daquela linha, o encontro glorioso de desenho e pintura , a entrada oblíqua do texto…. acima de tudo a profundidade daquela liberdade. Hoje minha grande alegria é não saber nada, me aproximar de cada técnica ou material com um amadorismo entusiástico; uma lição aprendida com o mestre que não gostava de ser assim chamado e ensinava pelo exemplo.

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