Merecer o material

Por algum motivo, talvez porque eu escreva tanto sobre o processo, acontece com alguma frequência de artistas mais jovens me escreverem perguntando coisas. Sempre respondo, com satisfação. Quando eu era jovem não tinha internet, literalmente não tinha pra quem perguntar. A informação era rara e preciosa. Cada entrevista ou matéria que lia sobre o processo de outro artista tinha tremenda importância pra mim. Então, vejo como uma forma de pay forward – fazer pelos outros o que outros fizeram por mim. Respondi hoje uma pergunta comum, sobre material. Aproveito então pra desenvolver em público a resposta que dei em privado.

Estou começando a desenhar / pintar / fazer quadrinhos. Que papel / pincel / lápis / tinta / nanquim você usa?

A versão curta é: não importa. Ou: o mais barato possível.

Se você está começando, você tem que produzir muito e  errar muito. Literalmente – as primeiras centenas de desenhos/pinturas/ páginas de quadrinhos vão ser ruins. É algo que repito sempre. Não tem escapatória disso. Você pode achar incrível na hora que fizer, mas acredite, no futuro você vai perceber que eram ruins. Quanto mais você produzir, mais rápido esse futuro vai chegar e você vai perceber isso e ir adiante. Então, no começo, você precisa de quantidade. Você não deve ter uma relação de reverência com o material, um pudor de gastar suas tintas caras ou riscar aquele papel maravilhoso. Um dos sketchbooks onde menos produzi foi um desses maravilhosos Moleskines que ganhei de presente. Cada desenho tinha que ser lindo naquele negócio lindo. Obviamente, isso vai contra o próprio propósito do sketchbook, que é experimentar, anotar, ter como laboratório. Faça seu sketchbook. Corte e grampeie o papel mais resistente/barato que conseguir.

Mesma coisa com o resto. Materiais são caros. Compre materiais baratos para experimentar. Pra dar um exemplo, faz uns dois anos que estou pintando e tudo que você pode ter me visto fazer até agora foi com a acrílica nacional mais ordinária. Agora, começo a sentir a necessidade de comprar uma melhor.  Mas porque realmente fiz tudo que podia com essa. Entendo agora o que ela não é capaz de fazer, o que ela não me dá.

Os pilotos não começam na Fórmula 1. Começam num kart. Aprendem a dirigir primeiro. Os guitarristas começam com a guitarra mais ordinária. Todo chef passou um longo, longo tempo descascando batata e cortando cebola na cozinha de alguém. Não começam usando trufas.

Também vale lembrar que a divisão entre materiais nobres e ordinários vem perdendo o sentido faz tempo. Tem gente fazendo trabalhos incríveis com caneta esferográfica. Ou com caneta marcadora de CD. Tem artistas com um trabalho super elaborado que desenham em A4. Artistas com desenho simplícissimo que desenham em A2. O que é mais um motivo para você experimentar de tudo antes de descobrir o que funciona melhor pra você. Não tem certo ou errado. Tem certo ou errado pra você.

Então: merecer o material.

 

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P.S.: Vou fazer uns adendos aqui, me perguntaram mais coisas em paralelo depois que postei, então vou complementando aqui.

* A questão do tamanho: não tem um tamanho certo,  ou melhor ou pior. Tem um tamanho certo pra você. Uma proporção onde você se sente confortável desenhando. E você só descobre por tentativa e erro. Em linhas gerais e mais especificamente em quadrinhos – se você gostaria de trabalhar em algum lugar específico, por exemplo publicar uma tira no jornal ou desenhar para  Marvel, faz sentido que você pegue uma régua e veja a medidas que eles usam e aumente proporcionalmente numa dimensão que lhe sirva. Basicamente, quanto maior a página, mais você vai ter a sensação de que preencher um quadrinho dá trabalho – ou: um espaço maior te permite ser mais detalhado com mais tranquilidade. Mas os exemplos concretos variam muito – por exemplo, Peanuts, que tem aquele desenho tão singelo, era desenhado num A2 cortado na horizontal. Druuna, com aquele desenho incrivelmente realista, era desenhado num formato pouco maior que um A4. Então: não tem regra.

** Os bons materiais obviamente tem suas vantagens. A Carol comentou que quando ela trabalha num bom papel, ela sente que insiste mais em um desenho. É verdade. De duas maneiras: 1) um bom papel aguenta a borracha. Você pode fazer e refazer mais vezes. Ou pintar tudo por cima e começar de novo sem que o papel empene.  2) Realmente há uma sensação de que vale a pena persistir naquele trabalho em particular. Mas, de novo, acho que é algo que acontece mais adiante, quando você já está num ponto mais avançado, de fazer cada trabalho contar. No início, a palavra de ordem é: quantidade.

*** Obviamente, tudo isso é minha opinião e experiência. É inegável que materiais ruins podem ser frustrantes. Mas se você não conseguir lidar com essa frustração, tá na carreira errada – porque como artista, tem uma vida de frustrações pela frente. O que me parece é que  lutar contra o material, nadar contra a corrente, é muito positivo – a cada material melhor que você comprar, as coisas vão fluir mais, merecidamente.

 

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