Saber desenhar é uma expressão enganosa. Na verdade as pessoas que supostamente sabem desenhar sabem desenhar algumas coisas. Tem um repertório, que idealmente vai sendo ampliado ao longo do tempo. Para todo o resto, Google Images. Idealmente também você se ensina a aprender mais rápido – é pra onde a prática leva: você vê uma foto, faz um ou dois ensaios e pronto, você “sabe desenhar aquilo.”  Idealmente. Mas ninguém sabe desenhar tudo. Só crianças, naquela fase onde o realismo ainda não chegou com seu chicote. E o Laerte, que segundo depoimentos do Angeli, pode desenhar qualquer coisa. Mas para os desenhistas humanos, é tudo aprendizado. Se você me pedir pra eu desenhar um rinoceronte ou uma retroescavadeira, o resultado vai ser bem precário – vão faltar partes, a orelha vai estar no lugar errado. E tem também os pontos cegos de cada um: não saber desenhar carros, por exemplo,  é uma aflição comum (que compartilho). E tem motivos, claro, são escolhas afetivas – pessoas que gostam de carros sabem desenhar carros. Eu por exemplo, desenho bem escrivaninhas do século retrasado.

Tudo isso pra descrever uma sensação curiosa: quando por conta de um projeto você estuda e “aprende a desenhar” uma determinada coisa – uma águia, um modelo de carro ou um personagem histórico – e por alguns dias, aquele conhecimento permanece, como efeito residual ou um superpoder ridículo: subitamente você sabe desenhar uma águia.  Daqui a uma semana você talvez não saiba mais. Mas por alguns dias está ali, uma imagem fantasma, literalmente nas suas mãos, uma memória muscular. Depois passa.

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2 thoughts on “

  1. Js says:

    Eu nunca tinha percebido isso… E, realmente, agora faz sentido algumas pessoas desenharem melhor certas coisas e outras coisas não muito bem, dependendo da sua afinidade com a coisa. É mais ou menos “você desenha o que você é”.
    Esclarecedor, Odyr!

  2. Tanto concordo que as pessoas não sabem desenhar tudo (o que dá um grande alívio), como concordo que o Laerte desenha qualquer coisa. Mas você sabe retratar em poucos quadros coisas que estão só dentro da gente. Obrigada, Odyr.

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