Como larguei A Igreja da Novela Gráfica – III

O céu não se abria porque minha fé estava na igreja e não em mim. Eu tentava me adaptar ao que o meio pedia, quando devia estar criando um meio para mim. Depois de dez anos de aprendizado nas catacumbas da irmandade da iluminura, centenas de páginas de histórias curtas, dois ábuns publicados (e mais uns dois ou três desenhados) , eu ainda não me sentia proeficiente.

Eu aspirava a uma construção cartesiana em preto e branco, a uma artesania sublime como a de Alex Toth (quando nem Toth foi suficiente para Toth),  enquanto meu desenho se desorganizava, se rebelava e era chicoteado diariamente. Felizmente o caos é irreprimível e se espalha pelas bordas e cresce como um vírus. Buscando refúgio da batalha de engenharia do lápis e borracha, comecei a usar outros materiais para fazer outras coisas, menores, pontuais.  Comecei a pintar, a cor invadiu, voltei a escrever e essas outras coisas se tornaram o que penso que seja meu trabalho hoje.

O louco disso tudo é que aos 20 e poucos, eu já trabalhava com cor e fazia historinhas curtas assim, gags, coisas de um quadro ou dois ou tiras como as que estou fazendo agora. Mas o canto da sereia da novela gráfica, o apito militar da disciplina do nanquim, o conforto de trabalhar com um roteiro e se perder nas engrenagens de uma história, tudo isso me levou a essa longa estadia em um lugar em que hoje me parece que eu não pertencia.

Fiz boas coisas, tenho orgulho dos dois álbuns que publiquei, mas agora, hoje, sinto que achei, enfim, um lugar pra mim, uma coisa que é minha. Algo que não poderia ser feito, melhor ou pior, por nenhuma outra pessoa. O que, me parece hoje, deveria ter sido meu objetivo desde o início. Ser, inevitavelmente, você mesmo. Nunca parece uma boa idéia, qualquer outro modelo parece melhor, mas é o que você tem.

E hoje estou aqui, criando esse negócio novo, dia a dia, sem um plano e sem aquela insatisfação constante, de nunca ter páginas prontas o suficiente. A ansiedade de performance também diminuiu – como a internet comprova, é perfeitamente possível fazer uma boa tira com bonecos de palitinho. Todo desenho que você botar ali é lucro. O mesmo poderia ser dito dos quadrinhos, mas na prática, não é. O leitor de quadrinhos quer ser impressionado, quer ver um desenho que ele não teria como fazer. No fundo, nunca deixa de ser o cara que escrevia pra coluna Leitor Marvel reclamando que o braço do personagem estava fora de proporção. Sinto que a tira me libertou disso tudo, do Leitor Marvel do Mês olhando por cima do meu ombro. Estou mais tranquilo, menos aflito. Cada tira é uma vitória, é uma coisa completa nova no mundo que não existia antes.  O dia está ganho.

Todo meu carinho e admiração pela igreja e pelos bravos praticantes do maratonismo que é a novela gráfica. Fico aqui, com essa modesta janela de três quadrinhos que achei pra mim. Parece do tamanho certo.

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3 thoughts on “Como larguei A Igreja da Novela Gráfica – III

  1. Bruno Costa says:

    Odyr, sigo acompanhando a distância seu trabalho, adoro seu blog com reflexões inteligentes e pontuadas de alguém maduro, vivido e sofrido. Espero que você continue lutando contra o pensamento domesticado e os lugares comuns. Vivas à volta da Editora Secreta e quem sabe da continuação da adaptação de “A invenção de Morel” (eternamente grato por me apresentar o ABC). Um saludo de um admirador quase anônimo nessa era em que todo mundo que não tem nada a dizer faz questão de assinar seu nome.

  2. odyr says:

    Gracias, Bruno. E se alguém que leu meu pedacinho de adaptação descobriu o Bioy Casares com isso, considero um sucesso.
    Abraço.

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