Tudo é narrativa

Esse não é o primeiro nem segundo artigo que vejo dizendo isso – a ciência comprova o que os grandes narradores (da política, da literatura, da música popular…) sempre souberam – contar uma história é a forma mais efetiva de transmitir uma idéia, fazer uma conexão, transformar as pessoas. A narrativa é mais forte que os fatos. Porque a narrativa é como entendemos o mundo.

Às vezes me impressiona o número de narrativas que conseguimos manter em paralelo. Nossa capacidade de acompanhar meia dúzia de seriados, enquanto lendo dois ou três livros, se mantendo a par do que acontece no escândalo da política dessa semana e na vida dos seus amigos. Tudo é história (queria poder usar estória aqui, maldita mudança essa que fizeram) tudo é narrativa. Mesmo o Eu, é uma construção narrativa. Ninguém se vê como um acúmulo de fatos (75% de água, 20% de gordura, classe social, raça, genética, etc), mas como uma história em andamento – eu era assim, aí aconteceu isso, e depois aquilo e agora estou aqui, agora sou assim.

Os exemplos que vêm da pesquisa científica são incríveis – leituras cerebrais demonstram que quando alguém ouve uma história, seu cérebro se alinha com o narrador. As mesmas áreas se acendem nos dois. O cérebro faz pouca separação entre ler sobre uma experiência e viver uma experiência. Uma outra pesquisa que vi há um tempo atrás dizia que ver filmes de ação faz perder peso. Você gasta calorias, porque seu cérebro entende que você está vivendo de fato aquelas aventuras.

(E, essa parte achei linda, a ciência defendendo a imaginação e a criatividade – os clichês da língua, as formas usadas até quase perder todo o significado, são percebidas como palavras simplesmente. Não causam sensações reais no leitor. Você escreve que sujeito “lutou com unhas e dentes” para se salvar e o leitor não vê unha, não vê dente, não acredita na luta. O mesmo com imagens, suponho. Para você acreditar, há que haver uma verdade ali e a verdade é específica, não é genérica.)

As mudanças no mundo são antecipadas e acompanhadas por mudanças nas histórias. Milan Kundera dizia que o romance antecipou a psicanálise, o Marxismo, o feminismo. O corpo de narrativas da humanidade é flexível, muda com o tempo, com a necessidade de novas histórias.

Tudo me faz pensar sobre a tremenda responsabilidade de quem conta histórias. Mas também aumenta meu desejo de contar histórias. Porque tem uma parte que esses estudos não cobrem e não poderiam cobrir, que é o papel transformador da história em quem a conta. Os motivos que nos fazem querer contar certas histórias.

O outro dia atormentei longamente a querida Angélica Freitas (como às vezes atormento vocês), com dúvidas que me atormentam sobre meu trabalho e por momentos eu conseguia me ver de fora – que fútil, que desimportante essa conversa poderia parecer. Como explicar a obsessão dos artistas com o seu trabalho?

Pra mim, a resposta está na minha crença de que a arte transforma não só o público como o artista, que no processo de contar essa história resolve coisas íntimas, pessoais, complicadas. São as histórias que ele precisa contar. Mesmo que não saiba. São porque você escolhe contar aquelas histórias, da forma que conta. E, com sorte, aquela história vai fazer o mesmo por alguém. Como dizia a de Beauvoir, uma das funções da literatura é mostrar que não estamos sozinhos.

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4 thoughts on “Tudo é narrativa

  1. Até por causa dessa questão de que ouvir uma história nos faz pensar nas ideias como se fossem nossas, 90% das vezes que alguém diz “também penso bem assim” é exagero. Mas acho que nesse caso é verdade que eu penso bem parecido contigo sobre essa questão. A importância das histórias. Adoraria papear.

    Sobre a questão da palavra “estórias,” discordo de ti. Acho tri ultrapassado separar a história fática e as histórias inventadas em duas palavras diferentes. Acho que dizer que tudo, quando já é texto, é o mesmo tipo geral de coisa, é coerente com o resto da ideia.

  2. Lendo o texto encontrei um pouco de mim e de nós humanos.

    “Para você acreditar, há que haver uma verdade ali e a verdade é específica, não é genérica.” Neste trecho eu teria substituído a palavra verdade, que é complicadíssima e leva a interpretações das mais diversas, e teria colocado: há que haver compartilhamento de significantes.
    O sujeito acredita na história do outro, acredita nos detalhes, enfim, sente a história do outro quando os elementos trazidos na história são comuns. Se o leitor não tiver aquele significante ele não entenderá.
    Esse texto inicia o meu pensamento acerca do tema: http://efeitorizoma.blogspot.com.br/2013/02/solidao.html

    Vou acompanhar seus pensamentos para ver se criamos um ponto em comum para dialogar.

    Para me despedir usarei uma saudação que não é minha. Ela vem de um mundo onde o meu e o seu não existe.

    Eu sou outro você e você é outro eu.

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