O ano começou, relutante. Ainda não há uma Grande Missão, Um Grande Projeto, as pessoas estão se bronzeando e tirando fotos em algum lugar, então vou fazer algo que não tenho feito, que é escrever diretamente nesse blog,  enquanto blog, a nível de blog, coisa e tal.

O sujeito se sente anacrônico só de escrever a palavra blog. O eu digital espalhado em duzentas plataformas. Ninguém mais escreve ao coronel, ninguém mais escreve em blog. Foi ontem, mas o tempo dos blogs já parece distante, parte de um passado mais simples e ingênuo.  Hoje existe uma plataforma para cada parte do seu corpo. Uma rede social só para suas unhas. Mas não vou resmungar. A internet é amiga do recluso e mesmo que eu tenha que fatiar meu ser/avatar, ainda é uma maneira eficiente de sair da casa para quem não gosta de sair de casa. Sou uma pessoa muito melhor por escrito. E o mundo virtual tem sido gentil comigo e as coisas que faço tem circulado, se multiplicam, acham improváveis leitores.

É oportuno chamar de coisas porque não sei de fato o que são. Não sei de fato o que faço. Me incomoda, às vezes, essa indefinição de formato, de atitude. Dificulta também para que as pessoas formem uma idéia do que você faz. Tenho sempre uma certa inveja de artistas que surgem com um trabalho tão claro, tão pronto, que você entende exatamente o que eles fazem e que espaço vão ocupar.

Comecei fazendo coisinhas assim – gags, um quadrinho, meia página. Depois progredi (palavra capciosa) para histórias curtas, depois desenhei dois álbuns (três – tem um inédito). Quase tudo em estilos diferentes. Tenho uma quantidade obscena de projetos em andamento no estúdio. Tem ficção científica, adaptação literária, pulp, metafísica… não tenho a menor idéia em que direção estou indo. Não tenho a menor idéia de como meu trabalho vai se parecer ano que vem. Em 2012 descobri a pintura e meu desenho se desmontou como um castelo de cartas. Agora os mecanismos dos quadrinhos , os andaimes, a engenharia toda me custa mais que nunca, me faz duvidar de meu impulso narrativo. Então fico fazendo essas coisinhas, que me saem, mas não sou humorista, me falta a implacabilidade, o espírito confrontacional. Sinto falta do abandono que é se perder no artesanato de uma história longa. Queria achar uma forma de fazer com menos andaimes, com menos ensaio, menos artifício, menos ofício. Estou procurando. Lembro sempre do Hiro dreams of sushi, onde o mestre diz que não aceita assistentes ocidentais porque eles não estão dispostos a passar pelo aprendizado, que dura dez anos.

Pois faz dez anos que comecei a levar os quadrinhos a sério e que venho desmontando esse motor pra entender como funciona e parece que  não sei nada e ainda nem comecei.

Um bom 2013 pra vocês também.

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