Não sei se estou aprendendo a pintar (sempre com meu autodidatismo selvagem) mas certamente estou aprendendo com a pintura.

A pintura ensina – paciência por exemplo. Esperar a tinta secar para poder avançar. Entender que esse tanto era o tanto que você podia fazer hoje. Entender que a pintura, como nas sábias palavras do  Stallone, não termina até que termine. Nada está perdido – se tudo der errado, você pinta por cima e começa de novo. Não tem erro, não tem acidente, tudo é processo, tudo é construção. Não tem nada que não possa ser arrumado. Ou que não possa ser estragado.

E o desenho, esse bastião que guiou sua vida? De repente, ele é soterrado, sobreposto, ele existe só como um trampolim para a cor. Toda a vaidade do traço que você levou a vida construindo – perdida. Toda aquela bravata de orgulho masculino que é o traço.

A mulher é uma construção, diz a Angélica Freitas. Nesse sentido, como a língua portuguesa sugere, acho que o desenho é masculino e a pintura, feminina. Se você olhar os desenhistas que tem um traço marcante, heróico, vibrante, energético, vaidoso, geralmente são homens. Mulheres, mesmo no desenho, costumam se importar com outras coisas. Com textura, com tramas, com a composição lenta de uma complexidade, com aquele pensamento rizômico que ocasionalmente as faz incompreensíveis para nós, com detalhes que compôem um todo. O desenho busca uma solução e é mais fácil saber se você está certo ou errado. A pintura não tem chão, não dá pé, você não sabe onde é raso e onde é fundo.

O desenho é estóico – um lápis que se aponta, um vidro de nanquim que dura meses. A pintura é essa amante exigente, que faz você gastar em papéis e tintas um dinheiro que você não tem. Mais, mais, mais! Tem uma luxúria. Mas tem os caminhos novos que isso cria – como por exemplo, querer usar uma cor nova que você comprou. Que motivo sublimente fútil para se fazer algo. E no entanto. E no entanto é uma outra via de acesso, a idéias que talvez não viessem pela estrada reta do desenho. É um um pouco como a descrição de como o David Lynch (pintor, aliás) concebe os roteiros dele – a partir de uma cena visualizada, de uma imagem entrevista, conceber o resto, o fundo para aquela figura, ou a figura para aquele fundo. Em oposição ao método clássico, lógico, masculino, de ir do ponto A para o B e C e etc.

Já me parece tão longo isso e nem falei da hora. De como resisti como pude à idéia de que se pinta de dia, mas o cânone tem (alguma) razão. De noite, se pinta por teimosia, mas é como dirigir no escuro. E aí você percebe que o SENTIDO, esse outro estandarte, não vai lhe salvar nessa hora. Todas suas intenções podem estar certas, mas a pintura se importa com a superfície, com a luz, com a textura, com o ritmo das pinceladas. Você precisa enxergar o que está fazendo. Cada pequena coisa importa. E, ao contrário do desenho, em particular o das artes gráficas, onde o original é só um meio, você está criando um objeto. No final do dia, a sensação de ter feito algo é mais sólida.

Nesse período entrehistórias, enquanto aguardo pra lançar um livro, dar uma respirada e começar outro, venho pintando todo dia. De dia. Às vezes, teimosamente, tarde da noite. No outro dia (pacientemente esperando pelo sol, pela luz certa) fotografo tudo e jogo numa pasta e não olho mais. Tudo é aprendizado, tudo vai para o que venho chamando de Caderno de Pinturas, tudo é uma construção.

A pintura é uma construção. Sem planta. Eu tô aqui, perdido no meio. Deve ser por isso que ando pintando o Minotauro. Faz sentido.

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One thought on “

  1. Caro Odyr, acabei de ler uma matéria aqui no Jornal do Commercio, Recife, vi duas páginas de Guadalupe, e tive a curiosidade de ver seu blog. Entrei aqui para comentar, pois seu texto sobre a pintura (mulher, processo, luz) me encoraja a brevemente instituir um blog como deve sê-lo: pessoal, confessional, reflexivo, um escambo: troca de bens simbólicos, da cultura, através da vida e da arte.
    Sou professor do Curso de Comunicação da UFPE e chargista a mais de 30 anos em jornais diários. Também faço quadrinhos de vez em quando.
    (cleristonchargista.blogspot.com e chargecompalavra.blogspot.com).
    Quanto ao blog que você me inspira fazer, seria um espaço virtual para falar de músicas – já tive banda e compus suas músicas – , de desenho, de artes em geral, “fugindo um pouco” do dia-a-dia da política e dos fatos jornalísticos. Enfim discutir e aprender mais pela reflexão que será imposta a mim mesmo sobre textura, ângulos, luz, sombras, linhas, tonalidades, cores, proporção, ritmo, alegria, angústia, solidão, exuberância, sensualidade, erotismo, paz, dúvidas… Enfim (novamente) discorrer livremente, sem rumo burocrático, sobre os que uma música, um desenho, uma escultura, uma pincelada, uma fotografia evoca – em sentido amplo ou restrito.
    Grande abraço e prazer em conhecer seu trabalho e suas parcerias.

    Clériston
    http://www.cleriston53@gmail.com

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