As definições (raras) flutuam, variam, mas como esboço/proposta , eu diria que artista gráfico é aquele para quem seu trabalho se realiza na reprodução – não há uma fetichização do original: ilustradores, chargistas, cartunistas, quadrinistas… um exército invisível de profissionais que desenha nosso mundo de formas raramente reconhecidas.

(definições, claro, são escorregadias e difíceis: um cartunista mais combativo pode achar, por exemplo, que um designer não é um artista gráfico. Um artista plástico pode achar, como acha com frequência, que um ilustrador não é um artista. E vice-versa. E os animadores, onde ficam? Tudo isso é cabeludo e complicado. Em geral essas definições importam pouco. Num certo nível, não importam nada, somos todos poeira no universo e tal. Mas me interessa tentar contribuir para um debate.)

Um texto do Orlando Pedroso, compartilhado pelo Caco Bressane, me fez pensar nisso de novo. Penso nisso há tempo.  Como é possível que todo mundo saiba o que é um artista plástico e desconheça o que é um artista gráfico, tão mais presente em sua vida. Qual é o território que ocupamos? As regras, os valores.

Chargistas, cartunistas, ilustradores, quadrinistas….artistas gráficos desenham nosso mundo, sinalizam as cidades, formam opiniões, cristalizam conceitos, ilustram nossos livros de história… .. e ainda vendem seus desenhos pelo preço da moldura do quadro de um pintor. Sem o prestígio dos artistas plásticos, sem o dinheiro dos designers, desprezados pela academia…

Orlando estava falando da progressiva expulsão do desenho dos jornais, pátria original de tantos artistas gráficos. Cartunistas sendo demitidos. Preço das ilustrações caindo vertiginosamente. Quadrinhos sendo reduzidos ou eliminados. Uma tradição humanista de liberdade sendo substituída por fotos que, em uma reviravolta da história, são hoje mais manipuláveis e seguras que desenhos.  Na verdade é impressionante que o cartunista/chargista tenha mantido por tanto tempo seu lugar. Ocupando um dos espaços mais nobres do jornal, livre para manifestar sua opinião sobre a nudez do rei de uma forma quase sem paralelos na corte.

Especulando sobre isso na rede hoje, tive retornos interessantes. Eduardo Nasi me sugeriu que viramos paisagem, que nosso trabalho se torna ocasionalmente invisível. É possível.  Guilherme Coube me lembrou que “houve um momento no passado em que processo e função eram tais que as duas andavam completamente juntas.” Pensei em Goya e outros que cruzaram e cruzam essas fronteiras.

No entanto, não se pode deixar de perceber que a palavra Artista é geralmente usada para falar de pessoas que expôem em galerias e não para quem publica em jornais, livros, revistas  ou internet. Que os valores envolvidos são brutalmente diferentes – o trabalho de um mestre das artes gráficas  vale uma fração do preço do trabalho de um artista plástico começando a carreira. Que a academia, enamorada da proposição conceitual (Duchamp ficaria perplexo, imagino, em como sua proposta de ruptura do padrão se transformou no novo padrão) afasta o desenho, diminui a importância do seu ensino.

Não tenho tempo ou disciplina para terminar esse texto com alguma conclusão iluminadora e satisfatória. Mais perguntas do que respostas. Se alimentar o debate e levar alguém a escrever algo mais consistente, valeu a pena.

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4 thoughts on “

  1. Pingback: El autor en la máquina « La Biblia de los Pobres

  2. Eduardo Nasi says:

    Posso aproveitar pra explicar aqui o que não cabe num tweet?

    É um chute. Um achismo. Mas a tal invisibilidade tem a ver com a qualidade do trabalho, em oposição à má qualidade. Uma página mal diagramada você sabe que é feia. Uma desenho ruim você sabe que é feio. Um banner medonho você sabe que é feio. Essas coisas incomodam. Já a beleza flui. Sem um olho treinado, uma página bem diagramada, um bom desenho e uma sinalização bem feitas são incorporados ao contexto. É assim que as coisas têm que ser: bonitas. O que é bom: parece que essa é uma ambição que todos devemos perseguir. E isso até me dá alguma esperança: parece que as pessoas sabem que é assim que querem ver o mundo.

    Mas não há treinamento de olhar nem de fazer. Na escola, ambiente de formação comum a todo mundo, isso não é importante. A gente estuda o mais obscuro e inexpressivo poeta simbolista na escola, mas Da Vinci é um parágrafo e uma imagem em tons de cinza num livro de História. A gente é cobrado a fazer a fórmula de Baskara à perfeição, mas os pincéis das eventuais aulas de artes são pouco melhores que escovas de dentes. Com isso, quero dizer que não só não aprendemos a ver a beleza como algo a ser buscado, mas que também não aprendemos que ela depende de esforço, trabalho, talento… Não aprendemos que ela está lá: só percebemos quando não está.

    Daí a invisibilidade.

  3. Gustal says:

    Sobre a progressiva expulsão dos artistas gráficos dos jornais: é mais um harakiri que os jornais cometem achando que estão passando um creme rejuvenescedor.

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