Diário de Guadalupe- III – Inventando o México

Terminei ontem de colocar tinta sobre as últimas páginas de Guadalupe. Também encerrei meu período Stalinista-revisionista-intervencionista. É isso. Ou é isso hoje.  Tem um grau de intervenção que o passado aguenta antes de virar outra coisa. Em poucos dias as páginas devem estar voando em direção à editora para que uma alma gentil retoque tanta intervenção nessas pobres folhas de papel. Tem página com 3 camadas de colagem. E um lápis furioso por tudo. Lembro que comecei Guadalupe logo depois do lançamento de Copacabana e estava cheio de gás. O álbum foi desenhado em três meses, e o lápis reflete a energia do período. Tentei encontrar uma arte final que não escondesse essa vibração toda. Mas somando o entusiasmo do período com a umidade assombrosa de minha cidade, que amolece o papel, muito do lápis é inapagável, são sulcos no papel.

Tive a sorte de ver de perto algumas páginas de artistas em que a página na mesa se parece muito com a página final. Os originais do Fábio Lyra, por exemplo, ou do Grampá, que não parecem ter sido tocados por mãos humanas. Digamos que não é o meu caso. Meus originais contam a história do processo tortuoso que foi chegar a aquelas imagens. E meu editor me garante que Photoshop Girl é uma alma gentil e paciente.

Enquanto não empacoto os originais (vou ainda percorrê-las de novo e tentar facilitar a vida de Photoshop Girl), pensei em mostrar umas coisas do começo.

Como se começa a desenhar um álbum que se passa no México? O álbum nasceu de uma viagem que Angélica Freitas fez ao México e de coisas que ela viu e imaginou por lá. Mas que México nós conhecemos além de cactus e tequila? E como são mexicanos? Isso da etnia é interessante, porque enfim, como é um brasileiro? Não dá pra definir uma coisa dessas. Se você olha uma foto de rua de uma grande cidade brasileira, você tem brancos, negros, orientais, latinos, etc. Mas no caso do México, a presença de uma etnia parece mais homogênea em fotos assim. Ou de duas etnias – espanhol e indígena. Então lembro que passei um mês mais ou menos lendo, vendo e desenhando coisas do México. Clips, filmes, livros, fotos, mapas, etc.

Esse é o momento em que você aprende a desenhar essas coisas, em que você tenta incluir esses referenciais novos no seu repertório. Porque, não importa que o google images exista e que bom que ele existe, mas trabalhar com um olho numa foto é um método ruim, capenga.  Alex Toth tem discursos e discursos sobre isso (Google it) – pesquisa de referências serve para você aprender os detalhes, o tipo de coisa que você não sabe ou não lembra, mas o ideal é você desenhar a página depois, longe delas. Para que seu quadro seja um todo orgânico. A imagem armazenada na sua memória vai sofrer transformações em contato com outras imagens mentais e idealmente você vai conseguir criar sua versão daquilo.

Consigo imaginar, claro, que há livros onde cenários e vestimentas tem que ser acompanhados com mais cuidado, onde há uma reconstituição histórica e a busca por fidelidade lhe manteria mais perto das referências. Mas o México de Guadalupe é felizmente bem flexível, um cenário leve para uma história imaginativa, então pude criar um México pessoal, meio pesquisado, meio inventado e atravessado por coisas que vi ao longo do tempo. E tive a sorte de ter amigos mexicanos, que à distância pacientemente me responderam perguntas, enviaram fotos, filmes, links. Gracias a Ivan, Ivonne e Elena. Espero que meu Mexico não lhes faça passar vergonha.

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