Grampá – pensar o desenho

Escrevi isso inicialmente ao compartilhar essa imagem de Grampá no Facebook (uma capa para The Massive,  de Brian Wood – Dark Horse Comics. Cores por Dave Stewart) e depois pensei em colocar aqui de forma mais permanente, porque acho que pode interessar para quem desenha e pensa o desenho, então desenvolvi um pouco e usei coisas que escrevi nos comentários e tal, dei uma empacotada. Gracias a Grampá por me permitir usar a imagem.

The image here is a Variant cover by Rafael Grampá for Brian Wood’s The Massive, by Dark Horse Comics. Colors by Dave Stewart.  The text that follows is a long commentary about it that, unfortunately, I just don´t have the time to translate.


Eu queria odiar o Rafael Grampá (como às vezes odeio, como é inevitável, sendo humano, odiar alguém tão talentoso e bem sucedido) mas coisas como essa capa me lembram porquê ele é o que é. E acho que é interessante apontar isso, por duas coisas:

Uma é porque me parece que a história ( a lenda) de Grampá ocasionalmente tem um efeito negativo, de criar em desenhistas iniciantes  ilusões que podem ser daninhas. Que eles podem pular olimpicamente dos primeiros trabalhos para o estágio em que ele está, artistica e profissionalmente. É importante reforçar o quanto o sucesso de Grampá é o resultado de um  set grande de características, de práticas, de uma ética de trabalho e de uma administração inteligente da carreira, além do óbvio talento. Pensar que “desenhar muito” pode lhe colocar na situação dele é equivocado e prejudicial.

E depois, me interessa mostrar como desenho não é uma habilidade irracional, um talento cego, que desenhar e fazer quadrinhos incluem todo um outro set de habilidades. O “prodígio” espontâneo só existe em música e matemática, dizem os especialistas. Em literatura, em desenho, em quadrinhos, grandes trabalhos são sempre mediados pelo pensamento, pela experiência, pela educação visual. Me desgosta a imagem do desenhista brilhante como um idiot savant, de cujo lápis imagens brotam em um fluxo mágico.  Lembro de Juarez Machado dizendo que poderia ensinar para um amigo “a cozinha” da pintura em uma tarde, mas seria uma vida de experiência e educação visual que permitiria a ele pintar significativamente. Lembro de Arrigo Barnabé em uma remota entrevista onde reclamava de como os músicos são burros.

Nesse sentido, cada vez mais, não acho possível ver um grande desenhista burro. Desenho é pensamento. É compreensão do tema ou objeto escolhido e decisões estratégicas acertadas. O simples virtuosismo não leva a grandes resultados. Tudo tem que ser permeado pelo gosto, por decisões – como na música – onde entrar, onde deixar espaço, quando ser lírico, quando ser objetivo. Virtuoses são os chatos, são os guitarristas que fazem solos intermináveis.

E nessa capa em particular,  você vê o tanto que tem em jogo – grande desenho sim, mas grande pensamento.

Tem a maneira como o desenho realista do barco não conflita com os personagens estilizados. Tem a nuvem maneirista do Grampá, ali; outra linguagem, e ainda participando do todo. Tem essa entrada gradual no trabalho dele do gestual mais bruto, usado como função, ali na hélice do helicóptero. Tem essa água, que é o que é – uma festa de grafismo – e no entanto se lê perfeitamente como água. E quem desenha, sabe como é difícil desenhar água.
E tem, claro, a ação acontecendo, a composição perfeita, as cores sutis e um nadinha de ruído gráfico colocado sobre tudo, que enriquece.

E tem mais: repare como no canto inferior esquerdo a escada e mastros são mais esquemáticos, são grafismo puro em preto e como eles vão ganhando detalhes conforme nos aproximamos da parte principal da cena. O grafismo vai abrindo. Isso cria profundidade no fundo e torna a imagem mais legível porque faz sentido visualmente – enxergamos mais detalhes do que está mais perto. Mesmo os personagens, são mais esquemáticos quanto mais para o fundo. Alguns desenhistas usam uma espécie de foco absoluto, onde tudo no desenho tem o mesmo grau de detalhe. Não é impossível ter bons resultados assim, mas é mais difícil, porque vai contra a própia forma como enxergamos. A um passo de distância, vemos a cor do olho, a textura da pele. A dez metros, a 20 ou 100 metros, vamos enxergar cores e formas com cada vez menos detalhes. Por isso, o olho que é só uma bolinha ou um tracinho vai ser lido de forma mais fácil e coerente em um personagem à distância, do que um olho detalhado.

Depois tem o que os americanos chamam de staging – como você posiciona seus personagens na cena, para melhor composição e eficácia. Não vou fazer gráficos aqui ou explicar em detalhes, porque já me alonguei demais,  mas a posição corporal deles e e a colocação de cada um na imagem leva seu olho exatamente para o lugar certo.

E esse todo de técnicas e idéias se amarra numa imagem coerente, que ainda se lê com facilidade.
Não é pouca coisa, amigos.

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Post scriptum – para encerrar o que já se tornou um texto excessivamente longo: Não estou sugerindo que Grampá tenha pensado racionalmente sobre todos esses aspectos antes de começar o desenho ou que nós façamos o mesmo em nosso trabalho.

Planejar tudo antecipadamente (e seguir esse planejamento) geralmente leva a resultados medíocres. Algumas coisas tem que ser pensadas e decididas antes – o desenho vai ser vertical, vai ter isso e aquilo… a composição básica é estudada e decidida…mas ao longo do processo, quando supostamente só nossas mão estão trabalhando, existe um pensamento em ação, um pensamento da ação, onde o cérebro toma decisões que não acompanhamos. Malcom Gladwell escreveu um livro inteiro sobre isso, Blink.

Achar o caminho do meio, esse que  vi definido lindamente por um personagem de seriado há um tempo atrás – o espaço entre não pensar e pensar demais –  é onde todas as coisas interessantes acontecem.

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5 thoughts on “Grampá – pensar o desenho

  1. O caminho do meio é estudar tanto essas coisas que você não pensa mais nelas de forma verbal, mas age instintivamente seguindo essas “normas”. É uma consciência absoluta do que se está fazendo que só aparece com muita prática. O cozinheiro não pensa “agora vou enfiar a faca aqui, e tirar a casca da cebola”, ele apenas pica a cabelo automaticamente, e quando dá por si, o prato está na mesa. É como amarrar os sapatos, uma coisa extremamente complexa, mas que todo mundo faz todo dia, até o ponto em que vira algo corriqueiro, indigno de nota.

    Adoro a expressão “fulano desenha muito!” para indicar que alguém desenha bem. Porque é justamente esse o “segredo” do grande artista: a qualidade só aparece através da quantidade.

    (claro que quantidade sozinha não garante nada, mas o estudo sozinho também não cria nenhum bom artista – tem que trabalhar muito, mas estudando, ou seja, evoluindo um pouquinho a cada novo trabalho)

  2. odyr says:

    É isso aí, Mr. Werneck. Gostei do exemplo do cozinheiro, faz todo o sentido. Até porque em cozinha ainda existe (acho) essa escola, de manter o aprendiz cortando legumes por um looongo tempo, até que o gestual seja realmente aprendido pelo corpo. No campo criativo, sinto que essa escola se perdeu um pouco, todo mundo quer ser gênio nas primeiras dez páginas que faz. O que, francamente, não é possível.

  3. Thais M. says:

    E num blink é o que pode não se fazer, ficar quieto ou esperar que todos façam o mesmo? Não é silêncio caro, é vontade de calar.

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