O cinema ensina

Um hábito estranho – fotografar filmes. Fetichismo com alguns frames que me impressionam e uma forma de estudar, de reter uma composição, um enquadramento, uma luz. O cinema ensina. A realidade em si – o que se vê quando se aponta a câmera – já é tão complexa, que muitas vezes o trabalho do diretor de cinema (e o de fotografia e o da direção de arte) é tirar coisas, remover e ordenar elementos para ter um frame mais efetivo, que se leia melhor. Então, de uma certa maneira, a complexidade é natural na estética do cinema.

Os quadrinhos partem do contrário, da folha branca. Só vai estar no frame o que colocarmos lá. Embora não haja nada errado com uma composição simples, mesmo com uma cabeça falante dentro de um quadro, sinto que pecamos por preguiça, com frequência. Um certo tipo de enquadramento complexo que se via em Alex Toth ou em Milton Caniff e não se vê muito mais. Uma cena vista de longe, através de ferragens ou ruínas em primeiro plano, o personagem cuidadosamente enquadrado, como parte de um drama maior. A realidade acontecendo ao longe. Dá uma gravidade à situação, oferece contexto, nos faz lembrar aonde aquilo acontece. Ao mesmo tempo relativiza, pode nos fazer pensar que essa é mais uma das muitas coisas que acontecem nesse lugar. Faz do homem  parte do mundo.

Nesse sentido, talvez os quadrinhos (e o cinema em sua relação simbiótica) sofram hoje de um excesso de primeiros planos e closes. Há motivos para isso. Além de ser mais simples desenhar ou fotografar um rosto em primeiro plano do que uma cena de composição elaborada, a proximidade reforça a emoção do personagem, o apelo é mais direto. O discurso se torna mais simples. A manipulação emocional também. Sempre lembro de um teórico dizendo que a forma mais primária de apreciação da obra de arte é identificação. Mas existem outras cordas para puxar,  outras informações que podem se adicionar à simples ação.

O que dizer dessa sequência de Dirty Harry? Baixei recentemente The Dirty Harry Collection, para ver por diversão e desisti do projeto, porque dez minutos do segundo filme me mostraram uma perda tão grande em relação ao primeiro, de Don Siegel. Que é assombroso tecnicamente. O frame do topo do post é de Escape from Alcatraz, também de Siegel, grande diretor, a ser estudado. E o paralelo dele com Toth é interessante – dois virtuoses que dedicaram sua arte em gêneros ou situações que nos parecem abaixo de seu talento. Mas davam o sangue em cada composição, em cada frame.

Dos diretores de fotografia para cinema, sempre se disse que eles estudavam os clássicos da pintura. O que me lembrou que Auden tinha um poema sobre o quadro onde Bruegel retrata a queda de Ícaro, acontecendo ao longe, desimportante para o camponês que trabalha. Se Ícaro fosse um herói de quadrinhos, veríamos seu rosto em agonia e horror ao ver suas asas derretendo. Mas a maneira como Bruegel mostra a cena diz tudo sobre a desimportância daquele drama para outros.  É só mais uma, entre tantas histórias.

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9 thoughts on “O cinema ensina

  1. Creio que o fato de não se ter enquadramentos como de cinema, como no caso do Caniff e Toth, se deva a uma certa auto-consciência do meio. Ao invés de pensar como cinema em papel, começaram a pensar como imagens num plano bidimensional, isso abriu inúmeras possibilidades para uma certa geração que devia se sentir presa a certos moldes.

    Mas sim, existe a rota mais fácil. Um das críticas para com o mangá, à partir da década de 80 em diante é que o foco saiu de histórias para personagens. Do plano geral para o plano pessoal.

    De certo existe uma tendência atual para o lado mais artes visuais do que cinematográfico, acho que o pulo do gato é saber conciliar esses dois

    A título de curiosidade, dois artigos do tcj sobre o gekiga e como eles viam o quadrinho como cinema no papel: http://bit.ly/fidDSo e http://bit.ly/is98LX

  2. Belo texto!
    Sobre a predominância de closes, o cinema tem uma razão a mais para explicá-la, e é de ordem bem prática: os filmes agora são vistos em uma infinidade de telas, algumas bem pequenas. Closes sempre foram predominantes na TV por causa disso – tamanho da tela. Agora o cinema também tem essa preocupação, já que a tela gigante é só a primeira janela de um filme. Depois tem avião, DVD, tv paga, tv aberta, celular, tablet, ipods, etc… todos com telas menores.

  3. Anonymous says:

    Acho que o fordismo crescente na produção de quadrinhos também pode explicar muito essa epidemia de “cabeças falantes”. É necessário um preparo maior em termos de perspectiva e desenho para conceber planos mais complexos e expressivos, e uma prática constante de elaboração de narrativa visual para concatená-los eficazmente.

    Bravo, Odyr!

  4. Ana Koehler says:

    Acho que o fordismo crescente na produção de quadrinhos também pode explicar muito essa epidemia de “cabeças falantes”. É necessário um preparo maior em termos de perspectiva e desenho para conceber planos mais complexos e expressivos, e uma prática constante de elaboração de narrativa visual para concatená-los eficazmente.

    Bravo, Odyr!

    • odyr says:

      Gracias, Ana. Acho que sim. O aquecimento do nosso mercado é uma coisa linda, mas talvez haja uma pressa excessiva em ocupar os espaços. Há tanto para se aprender em quadrinhos. Leva tanto tempo. No cinema se vê o mesmo – havia uma escola de se aprender fazendo, de começar como câmera, assistente de direção e ir crescendo devagar. Hoje há como que uma síndrome de ser gênio no primeiro filme.

  5. Os quadrinhos e os cinemas realmente sofrem de um excesso de primeiros planos. Outro dia vendo um filme pela TV reparei que não haviam planos abertos, apenas primeiros planos. Era como se todo o ambiente fosse excluído da obra e tudo o que importava era a facilidade, os diálogos, sem nenhuma atmosfera.
    Quando se faz isso propositalmente para conseguir um efeito intimista, pode-se conseguir resultados geniais, mas naquele sentido, não acho que foi o caso.

  6. Usar closes somente quando necessário. Uma lição que aprendi com Otomo Katsuhiro sama. Também busquei auxílio na direção de cinema, mas, para meu desespero, poucos são os diretores com visão, ou grana, para planos abertos, composições fortes, direção de arte ousada. Dos atuais diretores me fixei no trabalho do Tim Burton, um cara que tem sensibilidade para contar histórias não só através dos atores, mas também com auxílio, luxuoso, dos cenários. Na verdade encontrei um respiro mesmo foi na animação, onde cada milímetro quadrado da tela é pensado e tem participação no resultado geral. Ainda o Otomo diz que não se pode ignorar que 70% do que os expectadores vêem na tela é cenário. Escala, design, arquitetura,direção de arte, fatores tão importantes e tão esquecidos na hora do take. O lance é mesmo buscar informações complementares e interdisciplinares. Pra gente, que se lasca para produzir um quadrinho satisfatoriamente completo e que será lido em segundos, realmente é um trabalho dos diabos. Mas é tão bom saber que fizemos nosso melhor…
    Odyr, um grande abraço!

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