Evitar a maionese

Uma anotação rápida, um diário de viagem (de dentro do estúdio)  – venho incorporando mais e mais aspectos da pintura nos quadrinhos. Do material, do procedimento, do pensamento. Tem sido um prazer. Costumava comentar de como achava insano o trabalho de quem fazia quadrinhos pintados, mas como meu amigo Berliac seguia me apontando, pode ser um método até mais direto do que lápis e tinta. Como de fato pode ser, se você não se perder nos preciosismos de pintar o reflexo na ponta da unha do personagem. Você começa a pensar em blocos de cor ou de forma, ao invés de se obsecar com o trajeto do lápis, milímetro a milímetro.

Para mim tem sido mais relaxante, mais prazeroso do que puramente desenhar. Mas um conflito se exacerba, que é a dualidade apolíneo-dionisíca dos quadrinhos. Quadrinhos, como já foi dito, é controle de impulsos. O maior número de ex-quase-quadrinista-de-uma-ou-duas-tentativas são aqueles que se jogam na página e se perdem no prazer sensual do primeiro quadrinho e não conseguem passar para o segundo.

Todo o detalhe, textura ou hachura do mundo em um quadrinhos não vão te ajudar se você não conseguir resolver o próximo. Tudo em quadrinhos está relacionado. Cada quadrinho tem uma relação direta com outros; em tom, no desenho de personagem, na narrativa, ritmo, composição da página… duzentas coisas para se manter em mente. E ainda conseguir ter prazer naquele quadrinho individual.

A pintura, com sua textura, seu caráter mais orgânico e vivo, menos controlado que o frio nanquim parece ampliar isso. O caos está sempre mais perto e o prazer de se perder em um quadrinho é maior. Mas ainda você tem que manter a página em primeiro lugar, a narrativa como mais importante e estar pronto a mudar ou abandonar um frame que não funciona, sem dó. E evitar a maionese, que está sempre rondando.

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Ilustram essa nota frames (que ainda gosto muito) de uma adaptação de A chuva imóvel, de Campos de Carvalho, que abortei depois de 6 ou 7 páginas, porque achei que a maionese tinha vencido. Mas agora estou pintando uma história de 20 ou 30 páginas e está indo bem. Mando mais notícias do front conforme a batalha prossiga.

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