Notas distantes sobre um festival

Nota sobre as notas – esse breve diário de viagem deve ser lido como uma peça de humor autodepreciativo. Não reflete de nenhuma forma na organização do FIQ BH  e do assombroso esforço para orquestrar um evento desse tamanho. O festival é um sucesso de muitas formas e colegas mais generosos e menos fóbicos se divertiram, trabalharam muito mais duro que eu e terão relatos próprios, que serão pessoais, parciais e intransferíveis como esse.  Toda minha admiração por sua energia e disposição.

I – Partir

Viajar é brutal. É submeter-se a uma série infinita de indignidades. Obedecer o horário dos ônibus, espremer-se nas poltronas do avião –  entre uma senhora e uma jovem mãe, que trocam os lugares comuns maternos dolorosos de sempre por sobre sua leitura. Dormir, acordar, zombizar, preocupar-se com estar na plataforma certa, com suas possessões terrenas, com perder-se, com saber para onde ir. Que pessoas viajem por prazer é algo que não cessa de me espantar.

Entrê ônibus, avião, táxis e esperas, 12 horas da porta da minha casa até a porta do hotel. Tive sorte com o hotel. O velho hotel Esplanada tem todo um charme em sua decadência. Ao invés do horror moderno anônimo de sempre, ele mantém um clima de cela de monge ou quarto de poeta romântico do século XIX. Cheguei no dia 8, o que me deu um dia para descansar antes do início do festival. Diz muito sobre mim que eu praticamente só tenha tirado fotos do hotel.

O festival –  

 A Serraria  Souza Pinto é um lugar impressionante e o fato de que no final pareça pequeno é testemunha do sucesso do festival. Fiquei em uma mesa com amigos do sul – Carlos Ferreira, Mateus Santolouco, Azeitona, Pax e grande elenco. Na ponta das mesas, ao meu lado, Rafael Coutinho, solitário estrangeiro na república do sul. Grampá também fez uma participação com ele. Foi meu primeiro festival, então minha experiência é limitadíssima, mas fiquei com a impressão de que uma mesa pode ser melhor que um stand – facilita o acesso às pessoas, que passam por você, ao invés de um stand, que envolve uma decisão maior de entrar nele.

Encontrado e instalado, começa o trabalho de fato. E é trabalho, amigos. Tive a sensação de ter um emprego de novo. São 12 horas de contato com o público, de 9 às 9. Atrás daquela mesa se desenha, vende, explica, responde, promove, interage. Rafa Coutinho ao meu lado ficou como um exemplo incrível de dedicação e bom-humor. Seus projetos ambiciosos (os posters de HQ tamanho A2 e o lindo Beijo Adolescente) demandavam muita explicação e não o vi perder a disposição em fazê-lo, não importando quão improvável parecesse a venda.

Não era meu caso. Achava difícil explicar meu trabalho para crianças de colégio que estavam lá em busca do Batman, pediam desenhos e saíam desapontadas com o resultado. E eram multidões, hordas de crianças. E adultos, muitos também sem a menor idéia do que estavam fazendo lá. Acho que existe um mérito nisso. Que alguém entre lá com a mais vaga idéia do que seja quadrinhos e tenha alguma iluminação, algum encontro.

Mas encurtando a história – minha fobia com multidões, minha aflição de não conseguir completar uma frase com tantos amigos, colegas e heróis da profissão, me levou a durar só um dia e meio no festival. Como uma heroína almodovoriana à beira de um ataque de nervos, bati em retirada na metade do segundo dia.

Como não faço turismo e mudar minha passagem de dia encarecia muito, basicamente passei os outros três dias no hotel, lendo, escrevendo e desenhando. Não foi mal. Escrevi algo que gostei. E depois, descansado de novo, voltei sábado para meu lançamento oficial. Lancei Primeira Edição na luxuosa companhia de Pedro Franz, Gustavo Duarte e os franceses Olivier Martin e Cyril Pedrosa. Olivier Martin me fez comentários muito precisos e úteis sobre meu trabalho. Conheci enfim ao vivo meu editor na Companhia, o também fóbico André Conti. E, grande momento, conheci Kioskerman, que tem minha admiração incondicional, com seu trabalho tão elevado, intransigente e doce. Trocamos livros, conversamos um pouco, um quase nada que me fez feliz.

Sempre o pessimista, levei poucos livros e tive que imprimir mais em BH. Vendi uns 50 exemplares em um dia e meio, o que me parece bom e sugere que poderia vender decentemente se ficasse até o final, mas minha misantropia não me permitiu. Foi positivo como experiência, até para eu abandonar fantasias de um dia estar em Angoulême. Um festival requer um certo tipo de disposição do artista. Muita energia, simpatia e estamina. Para quem tem essas qualidades, ele pode ser uma plataforma interessante de contatos, venda e aprendizado. Nesses termos, nesse contato direto, o artista independente está quase em igualdade de termos com uma grande editora.

A menos, claro, que você seja um animal anti-social como eu. Vale a pena pensar sobre isso antes de fazer o investimento que o festival representa, em stand, passagens, estadias e todo o mais. Minha verba, por exemplo, era tão limitada que não comprei absolutamente nada. Mas fiz algumas trocas e ganhei outras publicações de amigos. Tive bons encontros. Queria ter tido mais tempo e espaço para conversas mais longas com colegas que vi de longe. Abraço a todos que vi e aos que não vi. Minha admiração pela variedade e vigor da cena independente, que a cada dia que passa borra mais as fronteiras entre editar-se e ser editado.

Mas de momento, difícil imaginar muitos festivais no meu futuro. Acho que vou tentar fazer minha parte aqui, quieto em meu estúdio à beira do fim do mundo. Mas torcendo por vocês, amigos.

Abraço.

Standard

3 thoughts on “Notas distantes sobre um festival

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s