O primeiro livro


Quando você publica um livro, você fica mais bonito. A frase, lapidar, é de minha editora e amiga, Martha Batalha, criadora da Desiderata. Embora o espelho não registre mudanças e continue improvável para mim ganhar a vida pela beleza, existe uma verdade na frase. Um livro publicado tem um certo glamour, faz com que as pessoas te olhem 10% diferente, você publicou um livro. E quem publica também tem fantasias sobre o livro, claro. Em nossas mentes ingênuas, a publicação é a entrada em uma outra dimensão, onde somos Autores, com um público cativo, apaixonado e crescente. É uma fantasia perpetuada no jornalismo e na ficção, com o primeiro livro (ou disco ou exposição) como um passaporte para um sucesso imediato e fabuloso. O que se segue não tem a intenção perversa de desfazer essas ilusões, mas de trazer alguma luz de realidade necessária para a coisa toda.

Respira fundo e vai.

Quando eu estava começando no mercado editorial, ouvi uma frase que continha números tão impossivelmente pequenos que era duro de acreditar – que quando você um lança um livro no Brasil, seu público potencial é de 2.000 pessoas. Duro de imaginar isso, em um país a caminho de ter 200 milhões de habitantes. Mas é fato. Com ênfase na palavra “potencial”. No Brasil, tiragens de 2 ou 3 mil exemplares são mais ou menos padrão para autores novos e autores que vendam essa tiragem são considerados bem sucedidos. Uma segunda tiragem é uma façanha. E com exceção de um número muito pequeno de autores reconhecidos, os números são esses. Faça as contas na calculadora para ver o que isso significa em porcentagem da população.


As explicações são simples – nosso país tem um número tristíssimo de analfabetos e um número que não é mensurado, mas imaginado, de analfabetos funcionais. Gente que supostamente sabe ler e escrever, mas com um nível de proeficiência muito baixo. E mesmo um pouco acima dessa faixa, a situação não é animadora. Todo dia, em todo lugar (nas faculdades, em redações de jornal…) você vê com horror pessoas incapazes de realmente entender um texto, colocar uma vírgula ou escrever uma frase simples. Some-se a isso o fato do livro ser criminosamente caro no Brasil. Mesmo sendo um leitor apaixonado, acho obsceno pagar 40 reais por um livro. 98, 6% dos meus livros foram comprados em sebos. E as dimensões continentais de nosso país tornam a distribuição do livro um empreendimento muito vasto e caro. Vi com simpatia o apelo de nossa nova presidenta para criar livros mais baratos. O livro digital e a impressão por demanda devem ajudar nessa situação. Porque,  quando você imagina um livro sendo impresso e distribuído fisicamente por todo o país e a chance do leitor potencial daquele livro se encontrar com ele, você vê que de fato é um sistema condenado. Mas esse é um assunto amplo e quem vem sendo discutido por pessoas mais capacitadas do que eu.


Voltando ao autor do início, cheio de ilusões sobre seu livro, o que isso significa para ele? Em termos práticos, significa que ele vai ter um retorno financeiro ínfimo, simbólico. Tradicionalmente, o autor recebe 10% do preço de capa de um livro, com  o resto do valor distribuído entre editora, livrarias, distribuição e publicidade. Em geral, autores recebem da editora um adiantamento desses futuros 10% de vendas, ao assinar o contrato. E para autores novos no Brasil, isso varia entre 2 a 5 mil, aproximadamente. E o fato é que o mais provável é que esse seja todo o dinheiro que ele vá ver por esse livro.  A menos que ele vá para uma segunda edição, tenha seus direitos vendidos para o cinema ou para o exterior. A matemática envolvida nisso tudo é bastante interessante. Pense em um livro de 40 reais, preço médio. Uma tiragem de 2.000 exemplares resulta em 80.000 reais, um número nada desprezível. Dos quais seriam devidos ao autor 8.000 reais. Mas como é mais provável que ele de fato venda 1.000 ou 500 exemplares (ou menos), você vê que o adiantamento já  cobriu isso. E embora 4 ou 5 mil reais pareçam um número simpático para um jovem artista, é importante lembrar que esse livro vai ser feito ou foi feito ao longo de quê? Um ano de trabalho? Talvez dois, talvez mais, em se tratando de quadrinhos. Aí você tem uma idéia clara do que um livro significa em termos práticos para um autor. E todo um argumento para a auto-publicação, mas isso é uma conversa mais longa para outro dia.

E em termos de achar seu público, o que o primeiro livro significa? É importante pensar nisso, não com pessimismo, mas com algum pragmatismo. Minha impressão hoje é que o primeiro livro é o começo de um diálogo, com um público potencial. Você se apresentou, disse algo interessante, um pequeno número de pessoas apreciou isso. No instante seguinte, eles vão estar lendo outros livros, vendo outros filmes, ouvindo outras músicas. Até você aparecer com outro livro. E outro. E outro.


É útil sair por um momento do pensamento umbiguista de que o mundo está esperando por sua sabedoria e pensar por um momento em você como leitor. Pense em seu autor ou autores favoritos. Pense como essa relação aconteceu e cresceu. Talvez você tenha encontrado esse livro desconhecido na livraria, comprado e começado um longo relacionamento. É possível. Mas o mais provável é que você tenha primeiro ouvido o nome dele de longe, citado por outro autor ou por um amigo leitor. Lá pela terceira ou quarta vez que isso acontece, você começa a imaginar que talvez ele possa lhe interessar. Até que um dia, (talvez anos depois) sua disponibilidade interior e financeira coincidem de se encontrar com um livro dele e você o compra. Ou lê emprestado de um amigo. E encontra ali uma voz que faz sentido para você, que você quer acompanhar. E talvez você compre outro livro dele. E ele venha a fazer parte da sua vida. Mas como todo relacionamento, como toda escolha afetiva, é um processo lento. Não temos uma quantidade ilimitada de tempo, afeto e dinheiro. Quanto tempo levou até seu autor favorito se tornar seu autor favorito? E você o conheceu em seu primeiro livro? Ou no terceiro ou quarto? Ou depois que ele já estava morto? Pense em quantos livros são lançados todo dia. Já faz muito tempo que uma vida inteira não dá para ler nem todos os clássicos.

Para cada caso de primeiro livro de sucesso, há milhares de autores valorosos trabalhando uma vida inteira com pequeno ou nenhum sucesso. Você precisa ter uma determinação samurai absoluta e um senso de sobrevivência agudo para permanecer no mercado. Você precisa desenvolver um público, trabalhar seu livro, criar interesse para ele. Isso faz parte do trabalho da editora, mas se esse é seu primeiro livro, você ainda ocupa uma parte muito pequena da atenção deles. Você precisa amar o que faz acima de tudo, trabalhar duro e lembrar que seu livro é um barquinho de papel colocado na correnteza, ao lado de milhares de outros barquinhos, alguns de papel, alguns de verdade. Uma mensagem na garrafa em busca de leitores.

Lembre que quando um livro encontra seu leitor, algo especial acontece. É o começo de um relacionamento que pode durar a vida toda, pode mudar a vida de muitas pessoas, assim como outros livros mudaram a sua. E você tem que estar sentado à sua mesa, produzindo outro. E outro. E outro.

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6 thoughts on “O primeiro livro

  1. quando virei leitor de verdade, descobri que gente morta também pode falar e tem muito a dizer, isso porque lançar um livro é uma chance de viver para sempre. mas eu ainda era criança quando aprendi (e ainda não apreendi) essa lição – ainda lia toda semana a revista recreio e estocava na gaveta seus brindes, good times.

    ler livros toma tempo e é uma arte recíproca, quem lê um livro também pode viver mais, é no que eu acredito.

  2. odyr says:

    Tenho a mesma experiência, Matheus. Me escondia na biblioteca no recreio do colégio. E aqueles caras mortos eram quem eu considerava meus amigos. Ganhei alguns amigos vivos, mas aqueles de papel seguem até hoje.

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