Sobre viver de arte

Curiosamente, minha primeira dica de como sobreviver como artista veio da propaganda, segmento que não costuma ter problemas com dinheiro. No livro Tudo que você queria saber sobre propaganda (lido em um tempo onde eu ainda tinha um interesse lateral no assunto) Magy Imoberdorf dizia que para não ter que fazer o que você não quer fazer, viva barato. É um grande conselho e ficou na minha cabeça, por mais de vinte anos.

Descobri o design por acaso, praticamente esbarrei nele. Trabalhava em um jornal como ilustrador quando os computadores começaram a chegar, como marcianos. Olhei com interesse aquilo. Da ilustração, como às vezes acontece, fui cruzando para a terra do design (desenho/disegno/design, tem um parentesco aí, por supuesto) e acabei vivendo disso. Começei como arte-finalista, fui diagramador, até ser diretor de arte de revistas, jornais e livros. Nenhum amor pela coisa, nenhum interesse mais profundo – nunca comprei um livro de design, não tenho heróis designers (bom, talvez um ou dois). Claramente meu coração não estava naquilo.

Quando a crise dos 40 bateu, eu tinha uns trinta e cinco, acho. Aquele momento de o-que-vou-fazer-com-o-resto-da-minha-vida. Eu era diretor de arte de uma revista de economia. Trabalhava um número insano de horas por dia. Coisas como virar a noite na redação, amanhecer em um táxi, levando fotolitos para o aeroporto. Coisas assim. Para fazer tabelas bonitas para uma revista de economia. Ganhava decentemente, nada demais. Costumava fazer piadas que era o único diretor de arte pobre do mundo. Claro que eu não era pobre. Mas nunca ganhei esses dinheiros impressionantes que pessoas do meio ganham. Talvez eu tenha tido sorte nesse aspecto, talvez isso tenha me permitido deixar o design para trás – o canto da sereia não era tudo isso.

Nesse sentido, a vida é feita de escolhas mas também de circunstâncias. Eu trabalhava com design editorial, em Porto Alegre, em uma revista pequena, sem glamour. Eu tinha tentado São Paulo um pouco antes, mas fui embora antes de conseguir algo. Me ocorre agora que se eu tivesse ficado em São Paulo, o desenho da minha história podia ter sido diferente. Em um estúdio de design ou propaganda paulista, com seu mobiliário cool, colegas lindas, muito dinheiro, muitas ofertas de consumo, a sedução da coisa podia ter me mantido mais tempo ou para sempre. Ou talvez eu não avançasse muito mesmo. Sem amor, sem entusiasmo, é possível que fosse um designer medíocre, pequeno. Não sei, são especulações.

O fato é que lá pelo 35 tive a crise dos 40 e larguei o design. Lembro do momento exato, do lugar onde almocei pensando nisso, da cerveja que tomei no almoço, da palpitação de já  me sentir mais livre. Consegui um trabalho em um estúdio de animação. (Fui colega do grande Mateus Santolouco por lá. Ele já desenhava muito.) Cheguei pronto para celebrar minha liberdade e criatividade. O primeiro trabalho que me passaram era de finalizar no Photoshop o mascote de uma loja de sapatos, que se chamava Caixito, uma caixa de sapatos com braços e pernas. Falo sério.


Aprendi bastante no estúdio, sob a orientação do fabuloso Andres, grande animador e professor de desenho. Mas em pouco tempo ficou claro para mim que aquela não era a liberdade que eu tinha imaginado. Porque aí entra um dilema com o qual todo artista tem que lidar – sendo a arte esse campo de incertezas práticas, como sobreviver? Melhor tentar viver diretamente da sua arte ou achar um outro ganha-pão-francês e fazer arte no seu tempo livre? A menos que você tenha nascido em berço de platina e não tenha essas preocupações mundanas, a vida de artista é um gameshow de sobrevivência. No Brasil, no mundo, talvez em outros planetas que tenham arte. O artista é ocasionalmente o gênio da raça, a luz, o caminho e a vida, mas ele é também o idiota da aldeia, que em vez de caçar e pescar, fica pintando as cavernas, com esse bisões feios, que ninguém dá a mínima.


Então o jovem artista sempre chega a essa estrada bifurcada. Em uma direção há uma grande tabuleta dizendo Viverás do Fruto da Tua Arte em Glorioso Êxtase (em um loft fabuloso, cheio de modelos e amigos inteligentes, malditos comerciais de cigarro) e na outra tem sua mãe lhe dizendo pra arrumar um emprego e fazer arte quando der. Eu tinha tomado, cheio de orgulho, a estrada do Viver de Arte, mas ela também se bifurca. Depois de um tempo nela, ainda ouvindo ao fundo a voz de sua mãe  lhe gritando que você vai passar fome, você chega em outra encruzilhada. Em um dos caminhos, uma placa diz Você Está Certo que Quer Realmente Viver da sua Arte? E você vê uma estrada íngreme e estreita que leva até o Olimpo onde vivem os artistas. A outra estrada, mais amena e plana, tem uma placa dizendo Quer Trabalhar com Arte Sem Morrer de Fome? Pergunte-me Como.  A maior parte de nós pega essa.

Essa segunda estrada é, por exemplo, um aspirante a quadrinista trabalhar como ilustrador. Um guitarrista dar aulas de violão. Coisas assim. “Não é o ideal, mas pelo menos você está trabalhando com o que gosta”. Esse é o mantra, é o que você ouve e o que você diz pra você mesmo. Mas, como quem pegou essa estrada sabe, é mais complicado que isso. Trabalhando em uma revista de economia, o desenho e os quadrinhos eram uma espécie de paraíso para mim, um lugar incrível para onde eu podia ir.  Mas eu ia como visitante, passava um sábado lindo desenhando, coisas assim. O trabalho não avançava, não tomava corpo, eu era um diletante. Eu me dizia que fazia quadrinhos, mas não devia ter dez páginas prontas, se tanto. Trabalhando em um estúdio de animação e ilustração, eu desenhava todo dia, é vero. A parte mecânica evoluia. Mas quando você passa o dia desenhando uma caixa de sapatos com pernas, o desenho pode perder um pouco do seu apelo. É como com os músicos. Todo mundo fala que tocar em bares, em festas, coisas assim, é uma grande escola. Você aprende a tocar de tudo, em qualquer situação, em qualquer formação ou tom. Mas anos e anos tocando a mesma música do Djavan podem deprimir seriamente um músico.

Então eu voltei na estrada. Até aquela primeira encruzilhada e peguei o caminho que levava até um emprego “normal”.  Minha mãe aplaudiu. Não vi como uma desistência, mas como  uma estratégia. Voltei para minha pequena cidade, onde a vida é barata e achei o emprego que me ocupasse o mínimo tempo possível. Trabalhava no jornal local, das 16 às 20, algo assim. E comecei a fazer quadrinhos a sério em meu tempo livre. Até que eu pudesse largar aquele emprego e chegar onde estou agora – em casa , desenhando (quase) todo o tempo. Ainda faço design. Faço sem sair de casa e faço o mínimo necessário para sobreviver. Tento fazer coisas que eu acredite. Alguns anos atrás, trabalhei no Rio e ajudei a criar a identidade visual de uma editora, a Desiderata, onde fiz coisas lindas e conheci muita gente. Ano passado abri uma editora, onde estou colocando pela primeira vez o design a meu serviço ou a serviço das minhas idéias. Relembrei que tenho sim, um afeto por ele. Desenhar livros, em particular, é um trabalho muito digno e que me dá prazer. E o design informa e influencia meu desenho. O desenho me fazia um bom designer e o design me fez um desenhista melhor.

Ainda gostaria, claro, de largar tudo. De poder passar um mês só pensando em uma história, sem responder email ou telefone. Talvez eu chegue lá, talvez não. Mas é importante lembrar que viver diretamente da sua arte pôe pressões sobre ela. Se eu quisesse viver totalmente de quadrinhos agora, eu teria que fazer quadrinhos que não quero fazer. Ou trabalhar de forma insana, sem tempo para a contemplação, que é o berço das idéias.

Cada artista tem sua própria versão dessa história. Não há escolhas certas ou erradas nessas estradas metafóricas. Gostaria que mais pessoas contassem como lidam com essas escolhas. Fique à vontade para contar sua história nos comentários, se quiser. Se eu pudesse dar um conselho a alguém nesse aspecto seria para planejar, tomar essas decisões com calma, com um plano, sem pressa. Não deixe a vaidade lhe levar cedo demais para o Viver de Arte. Grandes artistas trabalharam em bancos, para citar só um dos empregos que tememos que roube nossa alma. Ninguém pode roubar sua alma. Para sobreviver como artista, você precisa de estratégia. Você precisa ter uma obra para viver dela, precisa ter estrada, precisa ter um público. A internet facilitou muitas coisas, criou o crowdfunding, criou as redes sociais, os portfólios virtuais, os intercâmbios com artistas de todo o mundo.

E, acima de tudo, viva barato. Se pergunte se você realmente precisa viver em uma capital, precisa daquela última coisa brilhante que apareceu no comercial. Consuma menos, produza mais. Tempo é, de fato, dinheiro. Você trabalha para comprar tempo. E quanto mais barata sua vida, menos você precisa trabalhar e mais tempo você tem.

Para ser artista, que é o que você queria, lá no início, não?


Standard

42 thoughts on “Sobre viver de arte

  1. Bom, não sei se já posso dizer que tenho uma história, mas como você disponibilizou este espaço, vou chorar um pouco aqui. Há tempos estou “no meio do caminho”, sempre mudando de ideia, desfazendo e recosturando planos, não concretizando nada. Mas em todos os anos de dúvida, apenas uma coisa era certa: quero ser escritora. Isso nunca saiu da minha cabeça apesar de eu não produzir romances geniais ou ter poemas publicados desde os 15. Interesso-me também em ilustração e quadrinhos e penso em cursar artes visuais (estou no último ano da faculdade de estudos literários). Meu problema é que só consigo pensar no que estudar, enquanto não encontro nada que me sustente financeiramente. Sempre penso “agora vou lançar um livro, desse ano não passa” mas todas as vezes acabo deixando pra depois – a autosabotagem já virou ritual.
    Um grande abraço,
    @alineaz.

  2. Cá estou eu, 25 anos. Aos 22/23, fui trainee da Folha, trabalhei por um tempo lá como infografista. Antes disso tinha trabalhado com ilustraçnao pra publicidade. Larguei tudo, passei um ano vivendo do dinheiro que juntei e de pequenos trabalhos que surgiam. Organizei a cabeça, descobri que queria trabalhar com ilustrações conceituais. Passei alguns meses dedicando meus pensamentos a isso, logo começou a funcionar. Agora começo a colher os frutos, mas ainda com dificuldades.

    Pretendo um dia viver de quadrinhos, mas ainda não acho que tenha maturidade pra isso.

  3. Caraca.
    Abri esse post, rolei até embaixo (reflexo) pra ver qual o tamanho do texto (pensando “se for grande, vou terminar o que tenho pra fazer e depois eu leio”), e meus olhos irresisivelmente caíram na última frase.
    Terremoto. Silêncio.
    Li todo o texto. Senti o mesmo que senti quando li a primeira frase do Demian.
    Fiquei mudo. “O desenho da minha história…”
    Vou domir cedo hoje pra acordar tranquilo amanhã e levar meu bloquinho pra passear na praça.🙂

  4. Anonymous says:

    Texto fantástico como sempre, cada linha um clique novo. São as coisas que eu sei meio sem saber, entende? É nesse campo precioso que teus txts se inscrevem. A menção ao ‘idiota da aldeia’ me fez tremer nas bases – e é verdade! Um abc

  5. Eu estou indo me tornar professor de Artes, para me manter um tanto próximo da arte, para então desenhar nas horas vagas. Sei que não é a melhor estratégia e o tempo que sobra é pouco, mas minha situação está mais para “voltar a desenhar bastante” do que para “revolucionar o meu desenho”. Uma questão de salvar uma paixão… Me falta um pouco de disciplina e, no pouco que tentei, já descobri que colocar a responsabilidade da minha sobrevivência em cima do desenho estraga todo tesão da coisa.

    Eu já admirava os seus desenhos, mas desconhecia o seu dom com as palavras. Belo texto!

  6. jahan says:

    Cara que belo texto, provocador para quem se identifica como eu, la nos 80 a unica certeza que tinha era a de ser artista, escrevi, aprendi a tocar instrumentos, dancei, fiz teatro, roteiro de filme, pintura, desenho, artesanato, quando foquei na musica e na pintura já engulido de ideias de vanguarda, aparece a tal encruzilhada, na época todas as posibilidádes de sobrevivência me pareciam trairagem , pensava que estava vendendo minha alma ao sistema, então radicalizei, minha arte fica para mim, e para sobreviver , bom ai que se entregue a alma ao diabo,foram quase 20 anos rolando por cidades grandes fazendo de tudo , até um almoço com amigos, vinho um baseado e um disco da Janes, e com um soco na cara retornei Pelotas , ocupei um ap de família e vivendo Muito barato. e recomecei com artesanato, na arte de rua encontrei o elo perdido, produção artística financiada direto pelo consumidor final, ligação direta artista-produto-sobrevivência, mas ai veio danada da encruzilhada de novo, onde me encontro, não sei realmente não sei , talvez um almoço com amigos um vinho um baseado um disco do Miles…

  7. Anonymous says:

    Belo texto para se começar o dia. Adorei a leveza do tom.
    Passei por uma situação semlehante, de outro modo. Aos poucos foi identificando uma ‘despaixaõ’ por uma carrreira acadêmica em construção, longe das artes visuais. Entendi hoje que ela paga as minahs contas, necessárias, e me permite estar em um ‘lugar mental’ onde posso exercitar a minha arte, comprar materiais de qualidade e seguir experimentando. Tenho estudado gravura e permitido que reapareçam elementos de desenho enrustidos ao longo da minha vida. Bom, ainda estou na parte da ‘estratégia’, que, desconfio, será mais demorada que a sua, mas já me alegra poder enxergar a ‘contra-partida’.

  8. Beto says:

    Belo texto, Odyr!
    Arte é abnegação… Não conseguiria expor com tanta clareza como faz, a minha experiência.
    Mas quando temos objetivos definidos diante das encruzilhadas, não sofremos com as decisões.
    É natural que, se quiséssemos seguir o rebanho para vivermos no suposto conforto, não tenderíamos à arte.
    Abraço
    Beto

  9. Achei totalmente interessante o texto e honesto. E passo por uma situação “após a primeira encruzilhada” que é a decisão de se viver com a arte. Mas não é a arte design, e sim a arte quadrinhos. Essa loucura que tu tem de fazer um projeto que sai realmente do seu coração e acredita piamente que vai dar certo é o ponto onde parei. Felizmente tenho encontrado um meio de manter-me com dinheiro (mesmo que pouco) e tocar esse projeto, mas pra ser sincero contigo, o caminho é medonho todos os dias. Todos os momentos preciso de uma auto afirmação.

  10. C. says:

    Oi, meu nome é C. e eu sou uma artista anônima.
    (desculpa a piada de AA, mas adorei o texto e os comentários. É sublime, mesmo que por um momento, simplesmente pertencer, sem nos sentir deslocados ou sozinhos.)
    Faço arquitetura. Como dizem por aí: a única arte da qual se pode sobreviver. Mentira. O que é óbvio hoje não era antes. Nesse campo o desenho é o meio, não o fim.
    Não me arrependo dessa escolha. A faculdade me deu mais diciplina quanto a prazos, confiança quanto a minha habilidade e maturidade para desenhar mesmo o que não gosto com qualidade. Mesmo assim não tenho paixão pela arquitetura, no final do dia, aquilo é apenas concreto, sem nenhuma emoção pulsando em cada vértice. Nada, nenhum sentimento para mim.
    Do passado não me arrependo, só não tenho tanta certeza quanto ao futuro. Talvez me forme, talvez abandone tudo. Na bifurcação de um caminho, a escolha pela arte depende apenas de coragem. Todos sabemos que não é fácil e são poucos os que se atiram sem medo no desconhecido.
    Boa sorte a todos.

  11. A sensação que tive ao ir ler o texto, fabuloso, foi a de ser atingido por um piano de cauda no meio de uma tempestade em alto mar. Obrigado e me deseje sorte, pois tenho aquela bifurcação bem na minha frente😉

  12. odyr says:

    Já dizia o Millôr, quando perguntado que conselho dar aos jovens: “Tenham sorte.”
    Talento e dedicação são a base, mas um pouquinho de sorte ajuda pacas.

  13. Estou completamente apaixonada pelo seu texto. Parabéns por descrever tão bem o que eu já senti, sinto e ainda sentirei por tantas bifurcações e momentos da vida.

    Sorte a todos os artistas e aspirantes a artista como eu.

  14. Maravilhoso isso… eu arrisco dizer por mim que a Arte está e surge somente em todos esses passos, todos os nossos contratempos e reflexoes, vc simplesmente por si só, nos amadurece e cativa com um texto tao significativo. Parabens

  15. Pingback: Intermezzo |

  16. Para começar: que texto massa viu! Lindo, bom de ler e motivador.

    O que achei mais bacana é a amplitude que se pode dar ao que se entende por arte.
    Cabem os pesquisadores, os artesões, os educadores sociais….

    e o mais genial

    “Você trabalha para comprar tempo. E quanto mais barata sua vida, menos você precisa trabalhar e mais tempo você tem.”
    Falou tudo.

  17. Anonymous says:

    eu sou a mae do artista e sei como e complicado assistir todas as encruzilhadas destes genios,na realidade nós só queremos que eles sejam felizes e bem sucedido, coisa de mae

  18. É triste essa realidade meu maior sonho e viver da arte, desde pequena fui incetivada pela minha mãe que ama arte, mas na hora que as coisas ficarão sérias até ela desistiu e me desencorajou, hoje estou tentando retomar aquela bifurcação que você menciona, quem sabe aos poucos chego lá, um abraço.

  19. Lua says:

    Tenho meros 18 anos mas acho que tenho certeza (rs) de que quero viver de arte. Sei que é difícil, mas se eu não tentar sei que vou me arrepender. Faço cinema e pretendo ir pra São Paulo investir na minha música, já que moro nos “cafundó” do nordeste e já participo de pequenos festivais por aqui, mas é difícil conseguir alguma coisa por essas bandas, tanto no audiovisual quanto no musical. Tenho muito medo, mas pretendo seguir em frente. Estou a um passo de começar minha vida profissional e não tenho ideia do que poderia fazer a não ser arte, meus pais não escondem achar que eu vou ser pobre pro resto da vida e me frustrar, mas fazer o que né…

  20. puxa vida, odyr.
    essa semana que passou eu conversei longamente com uma tia muito querida que veio me visitar. acabamos entrando nesse assunto, ela me perguntou o que eu estava fazendo, e eu contei de todo o dilema do viver de desenhos e tal.
    hoje recebi um email dela com um link pra esse teu texto aqui –
    (não, ela não sabia de quem era o texto).
    valeu por ecoar as coisas que passam na minha cabeça.
    e, muitas vezes, por me explicar elas direitinho.
    beijos
    julia

  21. odyr says:

    Que louco, Julia.
    Mas esse texto está rodando mesmo. Foi e não parou mais.
    Nada que já não tenha te dito ao vivo, Mas às vezes, com letrinhas fica mais claro.
    Beijo.

  22. Claudio Henrique says:

    Caro Odyr, acabo de receber de uma grande amiga o link do seu texto. Somos amigos a bastante tempo e ela é como uma conselheira e ouvinte das minhas crises. Comecei como arte-finalista de jornal, passei a diretor-de-arte em agência de publicidade, fui design e novamente sou arte-finalista em agência de publicidade. Tenho o dom de desenhar mas nunca fui a fundo em aprender mais, estudar mais desenho, artes. Quase virei arquiteto também. Fiz técnico em edificações no segundo grau. Depois achei que ia ser jornalista pois trabalhei com arte final no maior jornal de Brasília.
    Mas ao entrar em publicidade, durante muito tempo vi todo o glamour de ser publicitário. Ganhei bem por uns tempos. Muitos freelances, muito serviço que me era terceirizado. Criava logomarcas e outras coisas mais. Me achava Design e Diretor-de-arte. E vi minha vida mudar de um apartamentozinho de 1 qto onde pagava prestação para a CAIXA (com minha esposa e 2 filhas e já pagava pensão para 1 filho de um primeiro relacionamento) para uma boa casa de 3 qtos e quintal completamente paga, quitada e tudo isso em apenas 1 ano. Fiquei marvilhado com a profissão de publicitário, me assustei com a velocidade que mudei de vida.
    Com o tempo fui percebendo que estava ganhando muito, mas perdendo mais ainda. Perdi por não estar com os filhos, perdi pois não tinha tempo para mais nada, perdia pois me separva da minha esposa e sim, por culpa da publicidade também, onde lindas mulheres davam em cima de mim apenas por diversão e confesso que naquela época não tinha cabeça e nem maturidade suficiente para lidar com o glamour publicitário. Me deixei levar. Ganhei dinheiro fazendo o que não gostava. No meio publicitário você se prostitui, você acaba querendo acompanhar todas as coisas que acontecem e se perde.
    Minha primeira crise aconteceu aos 35 anos também. Queria mudar mas não sabia pra onde, o que fazer. Tinha a responsabilidade agora de pagar 3 pensões alimentícias. Era obrigação trabalhar para pagar. Me considerava e me considero ainda, com o perdão da palavra, um grande prostituto. Trabalho por dinheiro e de preferencia pra quem paga mais.
    Vou fazer 45 anos em dezembro e estou na minha terceira crise de o que fazer. Ganho pouco para os padrões que temos em Brasília. Cidade cara, pessoas caras, impostos caros e muitos ladrões no congresso encarecendo ainda mais nossa vida.
    Pretendo viver de arte, morar no interior, ter uma vida simples, apesar de aqui já ter uma vida simples pois com o tempo você vai sendo expulso da publicidade pelos mais novos. Se você não é fodão, se não abriu uma agência, se não teve um plano B, você é expulso por causa do salário alto. É melhor pagar 3 novatos com seu salário e vc vai tendo que aceitar valores menores para sobreviver, pagar as contas e tentar viver.
    Sigo em crise e tentando encontrar a saída para o meu plano B. Estou pensando em estudar desenho e tentar fazer mais alguns. Tenho projetos de desenho e pintura que pretendo concretizar. Não quero viver como vivo hoje. Mas com 3 pensões que ainda pago é difícil abandonar tudo. Vamos ver o que aocntece.
    Ufa, falei demais. Mas por incrível que pareça ainda tenho muita coisa pra falar. Se leu tudo, obrigado e se quiser enviar algum comentário lerei com prazer.

    Obrigado, Claudio Henrique

  23. odyr says:

    Claudio, entendo tua história, ponto por ponto.
    E com certeza é mais difícil mudar a vida quando você tem pessoas que dependem de você.
    Vale dizer que desenhei meu primeiro livro tendo um emprego, desenhando de noite e tal.
    É duro, mas a resposta que você tem fazendo o que você ama vale a pena.
    Boa sorte com tudo.
    Abração.

  24. interaubis says:

    Mesma coisa aqui: pra mim a crise dos 40 bateu aos 33. Fiquei cinco anos me debatendo com editais (sem ganhar nenhum) e correndo atrás de miragens. Então no final do ano passado, quando fiz 38, resolvi dar um passo atrás e voltei a trabalhar com o que não queria mais. E quer saber? Minha produtividade na minha arte aumentou e muito. E agora finalmente as portas pro meu trabalho estão se abrindo. Sei lá, se é coincidência, mas enfim: em frente.

  25. Oi, achei bem interessante a discussão por aqui. Vivo numa situação de algum modo similar a alguns por aqui. Tenho 29 anos, sou jornalista, trabalhei por uns anos no maior jornal do país (depois de já ter estudado um pouco de Engenharia e Filosofia), mas me demiti ano passado pra ter tempo de estudar mais desenho, ilustração e roteiro; além de cuidar melhor de minha literatura – já que sentia que nunca dei a atenção merecida a esses assuntos. No fim das contas, voltei a fazer frilas ao jornal, e quem sabe volte de vez… Provavelmente não na mesma posição, ou então siga outro caminho.

    Almejar ser um artista é mágico (ainda mais quando a gente se espelha em caras que fizeram história, como Disney, Mauricio de Sousa, Osamu Tezuka, Marcos Rey, Steven Spielberg), mas a gente também é ser humano, e quer independência financeira, casa e comida por conta própria, ainda mais com certa idade. De um jeito ou de outro, paciência é necessária. E parece que é preciso escolher qual sofrimento e qual alegria valem mais a pena. E admitir que nossa vida e obra será sempre diferente de outros artistas que admiremos.

  26. Anonymous says:

    bom…o texto tem a ver com vida de quem leva a arte como vida e não é facil mesmo!!!e quando a gente ainda é mais velho um pouquinho temos que tomar esta decisão pra valer e correr os riscos.Acho que não tem outro caminho se não viver a arte!!!!

  27. jane grieco says:

    Na verdade è a arte que vive em mim e sendo assim nao posso viver sem ela…… hoje estou certa que nao preciso de comprar a ultima coisa brilhante que saiu como novidade em uma loja ;;;;; vivo simplismente …. moro numa pequena cidade no norte da frança que que tem a beleza natural de uma paisagem que nao tem preço;;; estou feliz e o dinheiro se faz o necessario para viver ….

  28. C says:

    Boa noite! Nem sei se os comentários relacionados aqui ainda são lidos (mas como li deve haver outro que leia), hoje li essa postagem e fiquei tão “de cara” com os depoimentos que resolvi conversar um pouco com os aqui presentes. Sou estudante de Licenciatura em Artes Visuais. Já cursei Design de Interiores e larguei, larguei Marketing no 3° semestre, larguei História, voltei pro Marketing e larguei de novo…rs! Atualmente me encontro frente à bifurcação citada. Não quero ser professor de artes na educação básica, não quero ser designer (e fazer da minha arte uma prostituta). Estou com 29 anos e as cobranças pessoais e familiares começam a chegar pesadamente. Ainda não tenho um plano B, mas começo a perceber a importância dele. Meu trabalho com arte é somente de colagens e não consigo vê-las sendo vendidas, pois trato nelas de questões críticas da sociedade com relação ao consumo exacerbado. Essa minha insegurança já está presente há algum tempo e por conta disso esqueci outras possibilidades…De verdade estou muito triste com essa situação…nunca consegui independência financeira…Por essas e outras não tenho conseguido dormir a noite, tenho consumido muitas drogas pra diminuir a ansiedade e já saquei também que a situação só tem agravado ainda mais por conta dessa falta de sapiência da minha parte. Gostaria muito que alguem se manifestasse aqui e me desse palavras de ânimo, afinal é perceptível que ansiamos pelos mesmos sonhos…. (Ao som de Legião Urbana – Mais uma vez). Até breve

    • Oi! Tb vivo dramas semelhantes. No fim de 2011, pedi demissão de meu emprego como jornalista, e depois de me dedicar por um tempo a estudar e criar ilustração, desenho, pintura e literatura, resolvi estudar para um certo concurso público que acredito me agrada e é extremamente difícil. Talvez eu passe anos tentando passar.

      Não sei se ficarei satisfeito depois com o parco tempo que provavelmente poderei me dedicar à arte depois, mas… Fiquei muito chateado com as condições precárias de trabalho como free-lance. E se for pra fazer livro didático como ilustrador, não sei se vale a pena…

      De todo modo, para quem gosta de produzir arte consciente e engajada, como o colega “C” acima mencionou, convido a participar do 2º Concurso Internacional de Artes pelos Direitos Animais! -> http://mauricio-kanno.blogspot.com.br/2013/04/2-concurso-internacional-de-artes-pelos_29.html

  29. Daniel says:

    Caraca, esse texto acima é exatamente um espelho do que estou passando,, acho que estou chegando na crise dos 40,,ahaha, mas digo isto por que tenho 32 anos, tenho um emprego normal em uma empresa, estou quase formado em Relações Públicas e na boa, não sei se serei um bom profissional de RP,,, o fato é que minha alma foi sempre de artista, e por isso acho que as histórias contadas aqui são parecidas,, por exemplo,, sempre disse a mim mesmo, não preciso ser rico, se tiver apenas para sobreviver rasoavelmente bem, mas fazendo o que realmente sei fazer, ta tranquilo. Parece idiotice, mas as vezes tenho até receio de ser promovido na empresa e talvez ter que abortar a vida de artista independente, na verdade todo artista quer mesmo é ser livre com sua arte. Compartilho da ideia de que para se largar nessa vida, existe a necessidade de se planejar bem, sem pressa, a gente chega lá,, outra coisa citado no texto e que acontece igualzinho a mim é o fator tempo, pois eu estando na empresa não tenho tempo de produzir minha arte que é no desenho grafite, consigo fazer algo nos sábados e por isso ainda não tenho um bom acervo para uma suposta exposição por exemplo,, mas independente disso, o melhor é não desanimar, e continuar tentando, só chega lá quem arrisca!

  30. Pingback: Causas Perdidas |

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s