Lápis e pincel

Em inglês se chama inking – a disciplina de cobrir seus desenhos a lápis com nanquim. “Passar por cima”, como debochava o personagem no filme de Kevin Smith. Em português se diz arte-final, o que é um pouco vago porque cobre muitas outras coisas ou entintar, a tradução literal.

Onde lê-se pincel, leia-se também pena, caneta ou tablet. Cada uma dessas ferramentas é um campo de estudo em si e informações abundam na internet. Não dá pra cobrir nem o básico de cada uma em um texto. Em geral, se experimenta com várias, até achar a que é certa para você. Cada uma tem suas dificuldades e seus ganhos.

Eu comecei com a pena, fui para o pincel e não voltei. A pena tem a riqueza de um traço mais idiossincrático, mas é uma rebelde. É difícil ela fazer o que você quer. Sem falar que ela tem uma posição exata para funcionar perfeitamente e pode explodir tinta no seu desenho a qualquer momento. (Tem uma piada aqui sobre a natureza feminina da pena, mas vamos deixar pra lá.) O tablet tem todas as possibilidades de traço dos dois e muitas outras, mas eu não gosto da idéia de que uma parte tão grande do processo seja feita no computador. Eu sinto que já passo tempo suficiente na minha vida olhando para essa tela brilhante.

Para alguns, a tinta é a etapa mais prazerosa do trabalho.  É mais sexy do que o desenho. O desenho é cerebral, é a construção de alicerces, é engenharia. Pelo menos dentro desse raciocínio onde o desenho é um mapa muito detalhado do que a tinta vai cobrir. O quanto esse mapa é detalhado varia abissalmente. Do cartunista que faz um esboço rápido e deixa bastante para resolver com o pincel ao desenhista da escola americana de super-heróis onde absolutamente tudo está definido. O que eles chamam de tight penciling, literalmente um lápis fechado, sem margem para ambigüidades, herança dessa divisão industrial de trabalho – o desenhista tentava fazer um lápis que o arte-finalista não pudesse estragar de nenhuma forma. Não havia nada para ser interpretado ou acrescentado. Era só seguir as malditas linhas e não estragar o desenho. E mesmo assim,  quando vemos nossos desenhistas preferidos dessa época, a escolha do arte finalista fazia toda a diferença.

A arte-final é o momento em que sentimos que os quadrinhos estão mais pertos de estar prontos, se tornam mais reais, parecem mais quadrinhos. São os 100 metros finais, é para onde tudo caminhou. (Na verdade, ainda tem muito chão depois, entre retoques, escanner, tratamento, etc, mas gostamos de nos enganar.) Para quem ama a tinta, há uma ansiedade para chegar lá.

Mas como tudo em quadrinhos, controle de impulsos é fundamental. Eu acredito que finalizar é como o que Fernando Pessoa dizia sobre o poema – ele tem que ser escrito no dia seguinte. Finalizar a partir do seu entusiasmo com o desenho não costuma dar bons resultados. É uma coisa melhor feita a frio. É um outro estado de espírito, uma outra vibe. De novo é aquela coisa do Dave Sim – dividir as funções. Eu acho interessante criar blocos de tempo reservados para cada atividade. Uma semana é uma boa medida. Se você passa uma semana fazendo só lápis, sua narrativa flui, você ganha uma fluência na gramática. A história avança.

O mesmo com a finalização. Só que é uma outra semana. Mais quieta, mais  vazia de pensamentos. É trabalho braçal, tem uma qualidade mais hipnótica.  Chega uma hora em que você não está pensando em mais nada. Está pensando em tinta.

Entrar nesse estado de espírito é fundamental e cada um tem seu próprio método de autoencantamento. Eu tento entrar pela mecânica, pela hipnose do trabalho manual. Pego umas 3 ou quatro páginas e faço só os requadros. Poderia fazer com caneta, poderia fazer no computador. Mas uns vinte minutos só fazendo linhas retas com o pincel realmente te pôem na zona. É um bom momento para fazer os balões também. Você passa um tempo trabalhando numa área puramente plástica, de linhas e formas.  Pinta as áreas de preto fechado.  Quando você chegar nos desenhos em si, você vai ter que tomar mais decisões, mas aí esse modo que estou descrevendo já vai estar operante, vai te ajudar a tomar decisões de forma mais intuitiva.

Para quem prefere não deixar páginas a lápis acumularem (porque 10 páginas a lápis podem parecer intimidadoras), há a possibilidade de fazer as duas coisas em horários diferentes. Fazer seu desenho cedo e encerrar o dia finalizando pode ser bom, acalma, remove um pouco aquela excitação das idéias. E uma página finalizada tem uma realidade que o lápis não tem. O lápis é uma promessa.

Mas dito tudo isso, para muitos a arte final é uma etapa sofrida. Os instrumentos são tortuosos, a espontaneidade ou as sutilezas do desenho se perdem e é uma etapa acrescentada em um trabalho já árduo. Basicamente significa desenhar o mesmo livro ou história duas vezes.

Existe um debate sobre a necessidade nos dias de hoje dessa etapa do processo. Berliac comentou o outro dia que a disciplina da arte-final nasceu no período industrial dos quadrinhos, quando eles eram impressos primariamente em jornais e ela era uma forma de se garantir uma reprodução clara. Mas os processos de reprodução avançaram muito. E os quadrinhos foram dos jornais para os livros e revistas, onde a qualidade de impressão é muito superior ao jornal. O lápis mais delicado ou a aquarela mais diáfana podem ser reproduzidos. E no mundo digital, nenhuma limitação existe.

Muitas experiências interessantes estão acontecendo nesse sentido do lápis como arte-final, contrastado no computador para ser sua própria arte-final. O trabalho do El Cerdo é um bom exemplo de uma linguagem muito fluida que ele vem construindo dessa forma. Ou do fim da divisão lápis/pincel em favor da idéia de construção de uma imagem, através de vários meios, camadas e materiais, como o que Berliac faz, por exemplo.

Gosto desse caminho, gosto da idéia de acabar com esse processo do lápis como engenharia e deixar que ele seja parte do produto final.  É o que venho tentando agora, fazendo o nanquim entrar onde ele precisa entrar, como uma outra informação.

Diego Gerlach defendia o outro dia a idéia de que esse movimento vem de uma urgência, de gente que quer contar histórias e sabe que é possível não ganhar nenhum dinheiro com isso e quer fazer mais rápido e em seus próprios termos. É um sentimento com o qual posso me identificar, linha por linha.


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