Caminhando no escuro

Odyr, não sei se aqui é o melhor lugar, mas queria fazer uma pergunta simples: quando você vai desenhar uma HQ, primeiro escreve o roteiro e desenha depois ou desenha e desenvolve a história simultaneamente? Felipe Sá 

Quando comecei a fazer quadrinhos, lá pelos 18 ou 20, não existia essa coisa chamada internet. Ou pelo menos a Web. A expressão “mercado de quadrinhos” era uma coisa risível. A informação era tremendamente escassa. Resumindo, eu não tinha a menor idéia de como quadrinhos eram feitos. Só um desejo enorme. A metáfora do desejo adolescente é apta – era uma coisa sôfrega. E quadrinhos tem uma coisa tântrica, de controle dos impulsos. Basicamente é quase impossível fazer quadrinhos “em tempo real”, conforme eles lhe ocorrem.

Então nesses tempos, armado de nanquim e entusiasmo, eu me jogava na página. Nem lápis eu fazia.  Meu motto na época podia ser o do Edu K.: Essa coisa de ensaio a gente deixa pro Fábio Júnior.

Coisas interessantes saíam ocasionalmente, mas a maior parte dos meus planos naufragava rapidinho. No meio da primeira página eu descobria que não sabia desenhar o que tinha me proposto ou não sabia o que fazer com a história ou simplesmente meu entusiasmo ejaculatório se desfazia. Período de grandes frustrações.

Depois a universidade me fez mais pretensioso, me afastei dos quadrinhos por um bom tempo. Perdi a paciência com a universidade. Descobri o design e fui ganhar a vida como diretor de arte. Ganhei algum dinheiro e fui infeliz, por uns 10 anos.


Lá pelos 30 e poucos tive um retorno aos quadrinhos. Além da minha crescente insatisfação com simplesmente estar vivo e ter um salário, foi o tempo da Circo, do Cavaleiro das Trevas, da Animal… coisas que reacenderam a chama. E a entrada da internet, que trouxe com ela um mundo de informação. Me pus numa espécie de universidade pessoal, li toneladas de entrevistas com outros artistas, aprendi um pouco como os quadrinhos eram feitos.

Aí começou meu período “aplicado”. Foram os anos em que comecei a trabalhar no meu desenho de forma mais determinada, mais pragmática e instrumental. Mas não vou falar de desenho hoje. Respondendo sua pergunta (enfim), Felipe, nesse fase eu escrevia muito aplicadamente meus roteiros, como se fosse cinema. “Exterior. Vemos personagem X ou Y.” Diálogos, descrições, coisas assim. Foi importante pra mim. Ainda acho que temos que aprender com o cinema, com o quanto eles trabalham em um roteiro, em vários tratamentos, em como ele é o resultado do trabalho e da visão de várias pessoas. Não faltam na internet recursos nesse sentido para quem quer aprender. Vou me limitar aqui à minha experiência pessoal.

Fiz muitas, muitas histórias curtas nesse período, com meus roteiros, de amigos, adaptações, etc. Uns 10 anos disso. Depois desenhei meus primeiros álbuns, Copacabana e na sequência Guadalupe, com roteiros de Lobo e Angélica Freitas. Também aprendi bastante com os dois. E entendi também como o roteiro é a base mas como as coisas se transformam quando o trabalho de adaptação começa. É interessante ler entrevistas de cineastas sobre isso. Sobre como o roteiro é o ponto de partida para alguns ou a Bíblia para outros. Sou um desenhista bastante intervencionista. Tem coisas que você só descobre quando começa a desenhar, quando os personagens começam a se mover. Nesses dois livros, troquei muitas idéias com os roteiristas, cortei cenas, ampliei outras, reescrevi diálogos, etc. Os dois foram muito generosos comigo ao me permitir essas liberdades.

Continuei escrevendo roteiros durante e depois desses dois livros. Mas algo foi acontecendo. Quando eu completava um roteiro, ficava muito satisfeito. Tanto que não tinha mais nenhuma gana de desenhar aquele troço. Nenhuma. Meu impulso criativo estava realizado ali, me parecia mecânico e supérfluo desenhar essas coisas. Tenho vários desses no meu computador. 

Ainda gosto de desenhar o roteiro dos outros. Porque é dos outros. Porque vou me colocar nele, porque vou partir dele para outra coisa.


Aí começou a fase onde me encontro agora. Descobri que para me manter interessado o suficiente para escrever uma história, eu não podia mais escrever o roteiro. Só o resumo mais básico. Que não matasse o impulso de realizar a história. Ou nenhum.

Viagem ao Centro dos 2.000 Eus, que estou publicando em capítulos e está com 40 páginas no momento, está sendo escrito em progresso. O Instrumento, que comecei a publicar na internet e agora concluí, idem. Strange Alien Love, que acabei agora e outras em andamento, a mesma coisa. Às vezes escrevo uma página ou duas antes de desenhar. Às vezes sento na mesa e vejo o que acontece.

É um método cheio de perigos. É como sair para viajar sem um mapa, sem reserva de hotel, sem nada. Você pode acabar no meio de lugar nenhum. Você pode se perder completamente. E você pode também chegar a lugares incríveis que não teria descoberto de outra maneira. Os escritores se dividem violentamente nesse aspecto. Cortázar, por exemplo, escrevia boa parte dos seus contos sem ter a menor idéia do que ia acontecer. Outros (Érico Veríssimo é um exemplo que lembro) só começam a escrever quando sabem tudo o que vai acontecer. Alguns defendem que é fundamental que você saiba o final. Alguns escrevem para descobrir. Outros tentam achar um caminho do meio.

Escrever sem roteiro pode parecer uma coisa hippie, descontrolada, uma receita para maionese ou desastre. Pode ser. Na minha experiência, funciona se você tiver um tremendo rigor. É como caminhar no escuro. Você tem que cuidar cada passo. Cada dia eu revejo tudo que fiz. Se algo me parece falso ou conduzindo a um caminho errado, eu retraço meus passos e refaço ou abandono páginas sem dó.

Acho interessante que eu tenha voltado à maneira como fazia quadrinhos quando muito jovem. Mas de outra maneira. Com toda a experiência que tive no caminho. Com mais controle, mais rigor.

É um método difícil. Mas me mantém interessado. E tem me levado a lugares interessantes.

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