Quantas vezes mais eu vou ter que ler o Craft is the Enemy Manifesto?

Craft is the Enemy é um manifesto do James Kochalka, quadrinista americano. Fala de quadrinhos, mas serve pra quase tudo.

Craft não tem uma tradução boa em português. É a técnica, o ofício, o saber, o artesanato. É um conhecimento, em (constante) construção, que te permite desenhar (ou construir, bordar, escrever, etc) o que você imagina. Mas também pode ser o que tem impede de realizar o que você imagina. É o que te faz apagar 20 vezes um braço até que a frustração te faça esquecer porque você afinal estava desenhando aquele quadrinho. Quando ele faz isso, ele é, de fato, o inimigo.

Todos queremos ser melhores, todos devemos tentar ser melhores, mas se a obsessão com o fazer da coisa, com algum modelo ideal na sua cabeça, lhe impede de fazer a coisa em si…isso se chama auto-flagelação. Ou procastinação. Ou auto-sabotagem. Em última instância é o medo de ser, o medo de existir, de contar as histórias que você quer contar, porque elas vão revelar quem você é.

Se seu herói, seu modelo estético ou técnico operava no nível que operava, é porque ele ele também estava permanentemente insatisfeito. Ele também não era bom o suficiente para ele mesmo. E ainda assim, ele é seu modelo. (No meu caso é Alex Toth, que também era um modelo impossível para ele mesmo. Nem Alex Toth era o suficiente para Alex Toth.)

Eu já escrevi esse texto antes. De vez em quando, eu tenho que escrever ele de novo. Escrevo pra mim, publico na esperança de ajudar outros. De vez em quando, eu preciso rever o manifesto, que diz *– sejamos francos, a maior parte de nós não é ameaça nenhuma aos artistas do passado, então não deixe isso lhe impedir de contar suas histórias. A arte que você tem dá e sobra.

(*Na verdade, quem diz isso é o Dave Sim, lembrei agora. Mas vale igual.) 

Ou talvez, e esse é um pensamento que me agrada, você tenha exatamente o tanto de craft que você precisa para contar sua história. Mas aí seria um pensamento meio determinista-destino-pensamento-mágico.

De uma forma pragmática, então – se você vem trabalhando nisso a sério por algum tempo, fez seu dever de casa, esse é o tanto que você tem. Agora, pelo menos. Fulano tem mais, beltrano tem menos, você tem esse tanto. Tem que ser suficiente. Te vira.

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2 thoughts on “Quantas vezes mais eu vou ter que ler o Craft is the Enemy Manifesto?

  1. Felipe Sá says:

    Odyr, não sei se aqui é o melhor lugar, mas queria fazer uma pergunta simples: quando você vai desenhar uma HQ, primeiro escreve o roteiro e desenha depois ou desenha e desenvolve a história simultaneamente?

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