Um monstro na Comic Con

Existem dois tipos de pessoas – as que dividem as pessoas em dois tipos e as que não.

Pausa para um sorriso.

Dentro do primeiro grupo, existe um pensamento de que existem dois tipos de críticos – os que gostam de falar bem e os que gostam de falar mal. Falar bem e mal são simplificações. Basicamente, alguns críticos entendem que é seu trabalho apontar as falhas em trabalhos de arte, enquanto outros preferem escrever sobre trabalhos que admiram. Entra aí a economia da atenção –  as coisas sobre as quais você (eu, nós, todos) dedica sua atenção, crescem. Os artistas também se dividem assim. Alguns estão aí para chutar o pau da barraca, outros para criar beleza. E os dois são importantes.

Digo isso para explicar o fato de que, se estou aqui ocasionalmente escrevendo sobre o trabalho de alguém, vai ser sobre coisas que admiro. Na divisão de Ziraldo, entre demolidores e evangelistas, estou com o segundo grupo. Não que eu seja um crítico. Sou um artista, escrevendo sobre os colegas.

Pois admiro muito Bruno Azevedo, acima. No capítulo Coisas Legais que Chegam pelo Correio, ano passado chegou Breganejo Blues, fabuloso livro auto inventado, auto publicado e promovido. Engraçado, original, bem escrito, o livro podia ter uma vida muito mais pop do que teve. Era o raro tipo de livro que todo mundo podia gostar. Agora Bruno está de volta com O Monstro Souza, que pude ler trechos pré-publicação. É, aham, a história de um cachorro quente que ganha vida e sobrevive como garoto de programa em São Luís do Maranhão. Ou como diz Bruno, talvez seja um livro sobre São Luís. Não posso falar muito ainda sobre o livro, porque li trechos e confesso que não avancei muito por restrições pessoais – uma resistência à escatologia. Coisas de quem nasceu em Pelotas. Com certeza ter capa do Marcatti já é uma mensagem. Percebi que a linguagem é mais polifônica,  menos pop.

Mas vou me deter aqui só em avisar – o livro tem um blog, onde artistas estão criando pin-ups do personagem e Bruno vai lançar na Rio Comic Con, então você pode conhecê-lo e ajudar a incentivar a intensa atividade editorial independente que o país está vendo. Intensa.  Fácil achar exemplos – As revistas Samba e Beleléu. O livro Um outro pastoreio, que conseguiu bancar uma linda edição colorida, capa dura através da pré-venda. Pedro Franz, citado em um post anterior. Muitos outros.

Num país com tiragens tão pequenas, acho que cada vez mais um artista deve se perguntar se não é melhor para ele tomar o processo editorial nas mãos. Se uma grande editora tem de fato algo para oferecer. Não sei a resposta. Estou entrando agora na Companhia das Letras, que admiro há muito tempo. Talvez faça diferença estar lá. Vou descobrir. Mas estou construindo um processo em paralelo. Uma forma de lançar coisas pequenas ou entre livros. E peças gráficas, prints, essas coisas. Mando notícias disso em breve.

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Adendo.

Isso saiu hoje, depois de eu ter publicado esse post e é um  exemplo ótimo de pequena tiragem, customização, controle do artista, etc:

Dahmer pintando à mão as capas de seu livro.

 

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Enquanto isso, de novo: Bruno Azevedo. Grande cara. Blog do livro. Se você vai na Rio Comic Con (acho que não vou, infelizmente) conheça, compre, participe.

Nunca tive a pachorra de ler a Fernanda Young, mas acho o título As Pessoas dos Livros muito bom. Nós, as pessoas dos livros, que lemos e os amamos, temos mais e mais chance de fazê-los acontecer.

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