Cachalote – a beleza difícil

Dentro da minha crescente percepção pessoal de que não existe um eu e um momento perfeitos para realizar as coisas, vou postar aqui um comentário incompleto e imperfeito sobre minha leitura de Cachalote. Literalmente incompleto, porque enquanto escrevo isso ainda não acabei de ler, mas receio que essas idéias me fujam. Estou no meu terceiro ou quarto dia de leitura. O que já é dizer alguma coisa. Como praticamente qualquer álbum de quadrinhos, você poderia ler Cachalote em um dia, mas seria um atropelo cruel, me parece. O livro é cheio de pausas e elas são benvindas. Lhe permitem conviver um pouco mais com esses personagens e como pessoas, eles crescem na ausência.

Acho que a primeira coisa que me ocorre é que esse é um dos primeiros quadrinhos adultos que vejo no Brasil. Quadrinhos adultos, essa expressão que já pareceu paradoxal, hoje é comum, mas é usada como uma classificação etária, em geral. Nesse sentido, Manara faz quadrinhos adultos. Mas francamente, Manara é um garoto velho e tarado (com o desenho de um mestre) brincando com suas barbies. Ele se diverte desenhando para nossa diversão voyeurística. Não existe muita diversão em Cachalote. De fato, existe quase uma recusa ao prazer. O livro é feito de recusas. O desenho de Rafael Coutinho, impressionante como é, recusa a espetacularização todo o tempo. Recusa o entusiasmo. Recusa uma noção mais óbvia de beleza. Os corpos são torturados, as pessoas são feias, mesmo Paris é mostrada de forma clínica, desglamourizada. O mesmo vale para o roteiro de Galera, que evita os grandes momentos, os truques, os brilhos fáceis. Pessoas tem conversas chatas, momentos se prolongam, as coisas duram o tempo que duram na vida.

O que isso tem a ver com ser adulto? Lembro de uma entrevista de Coppola onde a jornalista perguntava a ele sobre seus pratos preferidos da cozinha italiana e ele dizia que, quando criança, eram a macarronada ou a lasanha, mas que hoje preferia algumas verduras amargas e outras coisas “difíceis”. O tipo de coisa que você tem que ser um adulto para apreciar. Ter um paladar que vá além da gratificação instantânea do açúcar ou da gordura derretendo em sua boca. Numa nota paralela, mas nem tanto, é interessante que a cozinha italiana no Brasil, país jovem, quase criança, praticamente não tem verduras ou legumes. Tudo é voltado para a satisfação imediata – toneladas de molho e queijo ou pizza de strogonoff com chocolate. Não é raro  para brasileiros  voltar da Itália desapontados – acham a comida frustrante.  Um ensaísta de verdade poderia escrever umas páginas aqui sobre a infância do Brasil, onde mesmo o sexo é infantilizado, é na boquinha da garrafa, é desce a bundinha, etc, etc.

Teria muito para dizer sobre as tantas maneiras que o álbum me impressiona – no tempo da narrativa de Galera, na tour de force controlada de Rafael, mas só quis me deter nessa leitura parcial como modesta contribuição ao que se escreva sobre o álbum – as primeiras resenhas, apesar de deferenciais ao talento e credenciais dos dois, me pareceram decepcionadas. O que é um direito de qualquer leitor. Acho que só gostaria de contribuir com isso – Cachalote não é um sorvete, não é um Big Mac, não é um hit pop. É comida (ou música ou sexo) de adulto.  Aliás, é  sintomático que o sexo na história não seja fácil e adorável como o das mocinhas de Manara – ele é difícil e determinado como o do personagem que amarra suas amadas. Existe uma beleza e um prazer aí, mas é outro. Leminski dizia que o “difícil” em arte estava nas primeiras camadas, que a apreciação da arte era passar por isso, além da identificação fácil e dos prazeres imediatos. E que a  cada leitura ou audição, uma obra fica mais fácil, mais amigável.  Vamos torcer por leitores dispostos a ir além da primeira leitura.

 

 

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2 thoughts on “Cachalote – a beleza difícil

  1. Renan says:

    Belo texto e bela leitura do álbum, um dos melhores textos que li sobre a Cachalote. Acho que o texto contribuirá muito para discussões que se podem fazer em torno da obra.

    Abraço!

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