200 páginas ruins

Nada contra o tio Will Eisner, mas o livro que fez diferença para mim começar a fazer quadrinhos de fato foi o livro do maníaco Dave Sim, The Cerebus Guide to Self Publishing. Alguém devia traduzir isso. O livro tem uma franqueza e uma clareza nada demagógicas. Vai do lápis e borracha ao como lidar com contratos. É agressivamente honesto. E somado à uma sensação de urgência que eu já tinha em enfim fazer quadrinhos, a ética de trabalho implacável do livro realmente martelou minha caixa craniana.  Dave Sim é o cara que, no final dos anos 70, começou Cerebus, uma revista mensal que escreveu, desenhou e auto-publicou, por 25 anos. O resultado final, encadernado em livrões, está na casa das 6.000 páginas. Não vou entrar no mérito do trabalho (que acho bom) ou nas opiniões pessoais do autor (que são ligeiramente insanas), mas claramente ele tem autoridade moral para falar sobre ética de trabalho.

Uma das máximas que ele colocava no livro é que todo quadrinista (ou escritor, artista, etc) tem duzentas páginas ruins dentro de si. E que ele precisa fazê-las. Como toda frase de efeito, não é A Verdade, mas contém verdade suficiente para ter o impacto que tem. Porque quando eu começei a fazer quadrinhos de fato, há uns oito anos atrás, eu não conhecia muitos quadrinistas que tivessem feito duzentas páginas. Eu tinha umas vinte, talvez, com boa vontade, somando várias tentativas juvenis. Duzentas parecia uma quantidade impressionante de páginas.

Como tantos, eu queria fazer quadrinhos. Mas há uma vasta fenda na realidade  entre esse querer e o fazer de fato. Existe uma instrumentalização do desenho e a criação de uma rotina de trabalho e um aprendizado dos métodos, materiais e processos que faz com que a maior parte dos interessados não atravesse a fenda.

De alguma maneira eu consegui fazer as primeiras histórias. Que sim, eram muito ruins. Foram ficando melhorzinhas. Fiz alguns fanzines quando andava lá pela página 50, digamos. Ao redor da curva das 100, eu começei a publicar em revistas, como a Mosh ou a Grafitti. Quando surgiu a oportunidade de fazer Copacabana,  em 2006, eu não estava contando, mas sabia que tinha algumas centenas de páginas entre histórias curtas e não eram de todo más. Mesmo assim, eu tinha ainda uma idéia muito equivocada da minha proeficiência naquele momento e as 200 páginas de Copacabana foram um aprendizado duro. Fiz mais histórias curtas depois de Copa. Desenhei as 100 páginas de Guadalupe. Mais umas outras durante, outras depois.

Numa mudança recente, reencontrei minha edição do guia de Dave Sim. Reli trechos com a orgulho mal disfarçado de quem tinha cumprido etapas e tinha superado o  duro periodo iniciático de meu sensei. Quando cheguei à seção das duzentas páginas ruins, percebi que minha memória foi gentil comigo. No texto do livro, ele falava em duas mil páginas ruins e não duzentas.

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(Para quem não temer os rigores do sensei Sim, achei boa parte do guia online. A partir ali da Issue 168. Good luck.)

http://www.cerebusfangirl.com/artists/nftp/

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2 thoughts on “200 páginas ruins

  1. Pingback: Coisas que eu já pensei que era « Odyr

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