Tempo ao tempo

Comparações com outros meios são complicadas, frequentemente injustas. Como essa, que volta de vez em quando, de que os quadrinhos não conseguem ser ou não costumam ser, tão profundos quanto a literatura.

Com freqüência, isso vem de um foco excessivo no texto e de um descaso com as possibilidades de significado da imagem e não pretendo entrar no debate infinito que se abre aí, sobre as particularidades e méritos de cada linguagem.

Até porque, na verdade,  não posso deixar de concordar em parte.

 Se pode argumentar que pode haver mais profundidade em um quadrinho silencioso de Snoopy olhando para o céu do que em páginas de texto, mas a verdade é que, em geral, quadrinhos me parecem ter recompensas menos substanciais que a literatura ou mesmo o (bom) cinema.

Em coisas como Peanuts ou no trabalho de Kioskerman, ou Winsor Mcay, não sinto essa falta. São trabalhos tremendamente concentrados, são para o meio o que a poesia é para a literatura – a linguagem mínima levada ao máximo.

Mas na narrativa, breve ou longa,  sinto que devemos, ainda.  Que não entregamos tudo que prometemos. Minha impressão é que nos mesmos 100 anos, o cinema por exemplo, conseguiu alcançar uma maturidade narrativa que ainda buscamos.

Isso tudo poderia levar a um ensaio infinitamente mais amplo do que me proponho aqui nesses textos, então quero me concentrar muito singelamente em um dos aspectos em que sinto em que podemos avançar.

Muitos anos atrás, um amigo lendo uma história minha me deu um retorno muito útil e preciso – ele me indicou que eu estava atropelando cenas. Criando situações, mas não dando tempo para desenvolvê-las. É um pensamento que ficou comigo até hoje e que me parece responsável por parte do que nos mantém subdesenvolvidos.

A literatura tem uma potência enorme em cada um de seus signos. Se cria um mundo com muito pouco. Se escreve a palavra “chove” e temos chuva. Qualquer quadrinista que já tentou,  sabe o trabalho que é desenhar a chuva. “Um homem entra no bar”. E você não precisa desenhar o homem nem o bar. Em um parágrafo, um escritor pode colocar mais informação do que um quadrinista poderia colocar em meia dúzia de páginas. (E, enquanto um parágrafo é o trabalho de uma tarde para um escritor preciosista, meia dúzia de páginas representam uma semana de trabalho para um desenhista rápido.)

Se entende a libertação que Mutarelli sentiu, por exemplo, ao se voltar para a literatura. Acostumado a ter que criar o mundo com as mãos, escrever um livro em um mês parece fácil. E no cinema, uma vez que se aponte a câmera, o mundo está lá. Locações, enquadramento, direção de arte, claro; mas uma vez que isso esteja resolvido, você não precisa construir a cena, frame por frame. Isso faz com que, nas duas linguagens, não se economize tanto na narrativa, se tenha mais fluência na produção. As cenas tomam o tempo que tem que tomar, sejam dez páginas ou dez minutos.

Claro, muito do poder e sofisticação dos quadrinhos são seus saltos narrativos, o que acontece entre um frame e outro. Mas penso que é importante equilibrar esses saltos com momentos onde se possa sentir o tempo. Que alguém tome o café e realmente o tome. Tome o tempo que tomaria.

Dentro do bom senso, por supuesto. Como  um filme como Elefante, de Gus Van Sant demonstra, se tudo fosse filmado (ou desenhado) com as ações tomando o tempo que tomam, todo o tempo, se teria um produto quase insuportável. Cinema é corte. Mas de vez em quando o cineasta interrompe os saltos e te permite vivenciar um momento inteiro. Alguém acorda, alguém toma um café, alguém caminha na rua. Um ou dois singelos minutos em tempo real. Isso nos aproxima do personagem, facilita para que o acompanhemos em seus saltos no tempo. Qual seria o correspondente disso nos quadrinhos? Um quadrinho? Ou uma página?

E não é só uma questão de dar tempo a uma cena, ou de dar espaço para nada acontecer, mas também de levar a cena até o seu limite, ver o que ela realmente tem a oferecer. Em nosso entusiasmo de desenhar a próxima coisa interessante, em nossa falta de paciência para repetir cenários, podemos matar as cenas. Uma situação é apresentada. Depois a próxima. E a próxima. O grau de trabalho que colocamos em cada uma não nos faz perceber ocasionalmente que ela pode não ter sido o suficiente para cumprir sua função. Um ou dois quadrinhos são suficientes para apresentar nosso personagem, para dar conta de uma situação?

Fazer pela narrativa dramática ou cômica o que o mangá fez pela ação – oferecer o tempo para que ela se desenrole. Uma luta de super-heróis acontece em duas, três páginas. É uma sequência condensada de poses heróicas. No mangá, a luta é coreografada, os gestos tem respostas, conseqüências e acontecem ao longo de um continuum de tempo. Isso, aplicado não só às cenas de ação, explica muito do poder do mangá, da sua capacidade de imersão.

Em outros países, como nos Estados Unidos ou na França, onde a história da linguagem foi menos acidentada e interrompida, essa lição parece mais aprendida. Aqui, com nosso mercado morrendo e ressuscitando a cada dez anos, com uma carência de veículos, com a dificuldade de se dedicar à profissão, nosso aprendizado coletivo foi prejudicado. Existe ainda uma tendência de contar histórias esquematicamente. Atropelar nossos enredos. Como se no fundo, ainda estivéssemos meio perplexos de ter a oportunidade de estar contando histórias.

Felizmente tudo isso está mudando. Novas oportunidades no mercado e uma quantidade de exemplos positivos estão gerando histórias mais maduras, mais desenvolvidas na suas possibilidades.

Uma coisa que acho que também vai ajudar a nos levar para um próximo plano de maturidade é um abandono gradual (que já vem acontecendo) da necessidade de situações ou conceitos incríveis, fabulosos, extraordinários. Um jovem que é picado por uma aranha e adquire poderes! Um ser de outro planeta entre nós! Nada errado com esses exemplos, nada errado com o fabuloso. Desde que se entenda que não se pode viver só de conceito. Não adianta ter um conceito tão bom quanto o de Matrix se você não conseguir contá-lo, se você não conseguir fazer com que o leitor se envolva na história. Aí entra a cozinha, o artesanato, o desenrolar de cada cena, sua textura, seu clima, ritmo, sua particularidade.

Não que a resposta seja necessariamente fazer livros de 800 páginas ou histórias onde nada acontece. Mas ouvir o que a narrativa precisa. Dar espaço. Estar presente na cena, não ter a ansiedade de desenhar a próxima coisa legal e interessante. Deixar a cena se resolver, durar o que tem que durar, ser o que tem que ser, acontecer, realizar seu potencial. Para que os quadrinhos também possam ser tudo o que podem ser.

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6 thoughts on “Tempo ao tempo

  1. Sobre essa história de criar a chuva, lembrei do que o Joe Sacco falou em algum dos bate-papos quando esteve aqui: no quadrinho, ele pode mostrar a conversa que teve com uma pessoa em Gaza e ao mesmo tempo mostrar em todos os quadros que tinha um esgoto passando atrás deles, e que estava chovendo. Mas se ele escrevesse, não poderia interromper toda hora pra dizer “e aliás, continuava chovendo, e o esgoto ainda estava atrás de nós”.

  2. Ótimo texto, Odyr.
    Acho que aí reside a magia do cinema Francês e do quadrinho europeu de maneira geral. Em Verão Índio, do Hugo Pratt e do Manara tem uns quadros que me parecem existir só pra dar o clima da cena. Quase se escuta o som das gaivotas ao fundo. :)
    Abs,
    Victor

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  4. Pingback: Tempo ao tempo | RioComicon 2011

  5. Curioso que estava pensando nesse assunto hoje mesmo, reflexo daquela reportagem da Veja que reclamava da quantidade de quadrinhos no ENEM em detrimento – mentira – da literatura.

    Mas a questão do tempo nos quadrinhos é muito interessante porque ele está muito intimamente ligado ao espaço, algo que não se observa em outras mídias. Quadrinhos pequenos e pouco detalhados dão a sensação de uma narrativa ligeira, também se verifica o oposto, como nas splash pages.

    Acho que um outro fator nesse problema é a falta de críticos de quadrinhos. Temos até algumas pessoas que cobrem publicações, divulgam notícias, mas poucos se propõe a iniciar um debate como este, que é fundamental.

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